Por Cris Oliveira
Vermelho no fundo, branco nas letras e a marca da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). A nova campanha da Casa contra a violência à mulher começou a circular nesta terça-feira (15) e, em pleno período eleitoral, a escolha das cores chamou atenção.
A publicidade traz a mensagem “Denuncie. Ligue 180” e trata de um tema de indiscutível relevância pública. Mas há um componente político-institucional que torna a escolha visual ainda mais curiosa.
O 1º vice-presidente da Câmara Legislativa é Ricardo Vale, do Partido dos Trabalhadores (PT). E, conforme o organograma da própria CLDF, atualizado em junho de 2026, a Diretoria de Comunicação Social está subordinada à Primeira-Vice-Presidência. Dentro dessa estrutura está justamente a área de Publicidade Institucional.
E vermelho e branco são cores historicamente associadas à identidade visual do PT.
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Coincidência? Pode ser.
Não há informação que permita afirmar que Ricardo Vale tenha escolhido pessoalmente as cores das peças ou determinado o uso do vermelho. Mas, a poucas semanas das eleições, a escolha chama atenção, especialmente porque a utilização de cores na comunicação institucional já provocou uma boa dose de discussão política no DF neste mesmo ano.
Quando o problema era o roxo
Em abril, quando Celina Leão assumiu definitivamente o Governo do Distrito Federal, o GDF apresentou uma nova identidade visual.
Depois de sete anos, o ipê amarelo utilizado na gestão de Ibaneis Rocha deu lugar a um ipê roxo, acompanhado de um novo slogan.
Não demorou para a mudança virar assunto político.
Um dos que levantaram críticas foi Leandro Grass, também do PT. O então pré-candidato ao GDF classificou a mudança como “marqueteira” e questionou a prioridade dada à nova identidade visual do governo.
A discussão foi além do embate político. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios encaminhou à Promotoria Eleitoral pedido para analisar a alteração da identidade visual do GDF em ano de eleição.
Na ocasião, portanto, cor, marca e comunicação institucional foram tratadas como assuntos políticos.
Cinco meses depois, o cenário é outro. E a cor também.
Agora, é o vermelho que domina uma campanha institucional da Câmara Legislativa.
Vermelho é apenas vermelho?
Naturalmente, partido algum é dono de uma cor.
O vermelho pode ser empregado em uma campanha contra a violência à mulher por inúmeros critérios gráficos e publicitários. E a imagem das peças, isoladamente, não permite atribuir intenção partidária à escolha.
Mas há uma questão de coerência no debate público.
Se a troca do amarelo pelo roxo na identidade visual do GDF despertou questionamentos políticos em ano eleitoral, por que uma campanha institucional predominantemente vermelha e branca não poderia despertar a mesma curiosidade?
Principalmente quando a estrutura responsável pela publicidade da Câmara está subordinada à Primeira-Vice-Presidência, hoje ocupada por um parlamentar do PT.
O mérito da campanha não está em discussão
A campanha tem um propósito que precisa ser preservado de qualquer disputa partidária: combater a violência contra a mulher e incentivar denúncias por meio do Ligue 180.
A importância da iniciativa não está em discussão.
O ponto é justamente outro. Campanhas de órgãos públicos, sobretudo durante o período eleitoral, estão naturalmente sujeitas a maior escrutínio sobre sua linguagem, símbolos e identidade visual.
E, nesse caso, existe uma pergunta bastante objetiva que a Câmara pode responder: qual foi o critério utilizado para definir vermelho e branco como cores predominantes da campanha?
O que mostra o organograma da CLDF
A estrutura organizacional da própria Câmara ajuda a completar o quadro.
No organograma da CLDF, com situação atualizada em junho de 2026, a Diretoria de Comunicação Social aparece vinculada ao Gabinete da Primeira-Vice-Presidência.
Sob a Diretoria de Comunicação Social estão três grandes braços: Publicidade Institucional, Agência CLDF de Notícias e TV e Rádio Legislativa.
Portanto, o organograma não demonstra que Ricardo Vale tenha participado da criação desta campanha específica ou escolhido suas cores.
Demonstra, porém, que a estrutura responsável pela publicidade institucional está administrativamente subordinada à Primeira-Vice-Presidência que ele ocupa.
E esse é o dado que torna a escolha visual politicamente interessante.
Pode ser uma decisão puramente técnica.
Pode ser coincidência.
Mas, depois de o roxo do GDF ter sido colocado sob a lupa da política brasiliense, seria no mínimo curioso imaginar que o vermelho da CLDF passaria despercebido.
