Ao elevarem o tom diante de jornalistas mulheres, os candidatos ao GDF protagonizaram cenas que levantam um alerta sobre machismo e a dificuldade de alguns homens públicos em aceitar questionamentos femininos. No caso de Ricardo Cappelli, a mediação precisou intervir mais de uma vez enquanto ele atacava pessoalmente Andreza Matais.
O debate do Metrópoles terminou na noite de quinta-feira (10), mas duas cenas envolvendo José Roberto Arruda (PSD) e Ricardo Cappelli (PSB) merecem permanecer sob atenção mesmo depois que os microfones foram desligados.
Não pelas acusações trocadas entre os candidatos foram muitas ao longo da noite nem por alguma promessa específica apresentada ao eleitor. O que chamou atenção foi a postura dos dois quando precisaram responder a questionamentos feitos por mulheres jornalistas.
Em momentos distintos, Arruda e Cappelli (jornalista por formação) elevaram o tom diante de Andreza Matais e Isadora Teixeira. As cenas colocaram no centro do debate uma questão que vai além da disputa eleitoral: por que uma pergunta incômoda feita por uma mulher ainda provoca reações tão agressivas em determinados homens públicos?
O episódio envolvendo Cappelli foi especialmente desconfortável. Uma pergunta sobre sua passagem pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) terminou em ataques pessoais contra Andreza Matais. A mediação precisou intervir mais de uma vez para tentar recolocar a discussão nos trilhos.
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Arruda, em outro momento, também elevou o tom ao discordar de informações apresentadas pela mediadora Isadora Teixeira.
As duas cenas deixaram uma pergunta que não estava prevista nas regras do programa, mas acabou colocada diante do eleitor: aqueles candidatos teriam reagido da mesma maneira se estivessem sendo questionados por homens?
Cappelli tinha uma pergunta para responder. Preferiu atacar quem perguntou
Andreza Matais questionou Ricardo Cappelli sobre apurações relacionadas ao período em que ele comandou a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial.
Era uma oportunidade importante para o candidato. Cappelli poderia usar aqueles minutos para explicar detalhadamente sua versão, apresentar os arquivamentos mencionados, contestar as informações que considerasse incorretas e dizer ao eleitor por que entendia que as suspeitas levantadas contra sua gestão não procediam.
Ele começou respondendo, mas rapidamente mudou o alvo.
Em vez de permanecer no conteúdo da pergunta, Cappelli passou a atacar Andreza.
“Pare de mentir, Andreza. Não insista em mentira”, afirmou.
O candidato também questionou a trajetória profissional da jornalista, fez referência à passagem dela pelo Estadão, acusou-a de ter produzido uma “fake news” e a classificou como uma “desafeta”. Chegou ainda a mencionar uma suposta discussão anterior entre os dois.
A pergunta era sobre Cappelli. Por alguns minutos, entretanto, pareceu que Andreza Matais é que precisava prestar esclarecimentos.
Essa inversão chama atenção porque reproduz um comportamento conhecido por muitas mulheres em ambientes de poder: quando fazem uma pergunta incômoda, apontam uma contradição ou exercem autoridade profissional, deixam de ser interlocutoras e passam a ser tratadas como o problema.
A mediação precisou intervir
A situação exigiu a intervenção da condução do debate. Cappelli foi orientado a responder ao questionamento e a não utilizar seu tempo para atacar pessoalmente a jornalista.
Não resolveu de imediato.
O candidato voltou a confrontar Andreza, obrigando a mediação a intervir novamente.
Esse talvez tenha sido o aspecto mais preocupante do episódio. Não havia qualquer impedimento para que Cappelli afirmasse que a pergunta continha informações falsas. Se entendia que havia erros, poderia apontá-los. Se possuía decisões favoráveis, poderia apresentá-las. Se procedimentos haviam sido arquivados, poderia explicar quais eram e em quais circunstâncias isso ocorreu.
O direito de resposta, porém, não exige transformar a carreira, a reputação e uma suposta desavença pessoal com a jornalista em assunto do debate.
A postura causa ainda mais estranhamento porque Cappelli é jornalista de formação e, portanto, conhece o papel de uma sabatina e sabe que perguntas difíceis fazem parte do trabalho da imprensa.
Machismo também aparece na maneira de reagir
O machismo nem sempre se apresenta por meio de uma frase explicitamente ofensiva às mulheres. Também pode aparecer na tentativa de intimidar, desqualificar ou retirar a autoridade de uma profissional quando ela ocupa uma posição de comando ou faz uma pergunta que contraria um homem poderoso.
É preciso reconhecer que elevar o tom diante de uma mulher não comprova, isoladamente, uma intenção machista. Mas o contexto não pode ser ignorado: duas jornalistas mulheres, exercendo suas funções profissionais, precisaram lidar com candidatos que transformaram questionamentos legítimos em confrontos pessoais.
No caso de Cappelli, a jornalista deixou de ser apenas a autora da pergunta e passou a ser atacada em sua trajetória e em sua credibilidade. No caso de Arruda, a mediadora precisou insistir para conseguir retomar o controle do programa.
Quando homens candidatos tentam se impor pelo tom de voz diante de mulheres que estão apenas trabalhando, o episódio ultrapassa uma simples divergência. Torna-se necessário discutir como o machismo se manifesta nas relações entre poder, política e imprensa.
No fim, a ABDI quase virou coadjuvante
Quanto mais Cappelli atacava Andreza, menos se falava sobre aquilo que realmente poderia interessar ao eleitor: o que ocorreu na ABDI e qual era a resposta do candidato aos questionamentos apresentados?
Depois das intervenções da mediação, Cappelli direcionou parte de sua fala para críticas ao atual Governo do Distrito Federal, citando BRB, saúde e educação.
São temas legítimos em uma eleição para governador, mas não eram o centro da pergunta que estava diante dele.
A discussão sobre a jornalista ocupou um espaço que poderia ter sido utilizado pelo próprio candidato para esclarecer sua gestão. Esse foi um prejuízo provocado pela reação de Cappelli.
Ao personalizar o confronto, o candidato não apenas atingiu Andreza Matais. Também impediu que o eleitor recebesse uma resposta mais completa sobre um assunto relevante de sua trajetória pública.
Arruda também tensionou a relação com a mediadora
José Roberto Arruda protagonizou outro momento que merece registro.
Ao ser confrontado com informações relacionadas à sua situação eleitoral, o ex-governador discordou da abordagem e elevou o tom diante da jornalista Isadora Teixeira, responsável pela mediação.
Arruda contestou as informações apresentadas e tentou continuar argumentando mesmo depois de encerrado o espaço destinado à resposta. Isadora precisou insistir para retomar a condução.
“Candidato, por favor”, repetiu durante o confronto.
É legítimo que Arruda conteste interpretações sobre sua situação jurídica. Ele pode recorrer das decisões, apresentar sua defesa e questionar publicamente informações que considere equivocadas.
O problema está na maneira como reage quando essa divergência acontece diante das câmeras.
Isadora não era adversária de Arruda. Era a mediadora responsável por garantir o cumprimento das regras e o equilíbrio do debate. Ao insistir em falar além do tempo e dificultar a retomada da condução, o candidato colocou a jornalista em uma situação na qual ela precisou reafirmar repetidamente uma autoridade que já lhe pertencia.
A imprensa não precisa concordar com candidato
Nem Andreza Matais nem Isadora Teixeira estão acima de críticas.
Jornalistas podem errar. Uma pergunta pode partir de uma premissa contestável. Uma informação pode estar incompleta. O entrevistado tem todo o direito de corrigir a jornalista e apresentar fatos que contradigam aquilo que foi dito.
Isso faz parte do jornalismo. O contraditório vale para os dois lados.
Mas existe uma diferença entre contestar o conteúdo apresentado por uma jornalista e transformar a própria profissional no alvo do ataque.
Quando a resposta deixa de ser “essa informação está errada e vou explicar por quê” e passa a discutir a carreira, a reputação ou desavenças pessoais de quem perguntou, o foco já mudou.
A pergunta deixa de ser respondida. A jornalista passa a ser julgada.
Esse deslocamento é ainda mais grave quando reproduz uma velha dinâmica machista: a mulher que questiona deixa de ser reconhecida por sua função profissional e passa a ser tratada como alguém que precisa ser desacreditada, interrompida ou colocada em seu lugar.
O debate mostrou mais do que propostas
Campanhas eleitorais são ambientes controlados. Vídeos são editados, discursos são preparados, entrevistas podem ser estudadas previamente e as redes sociais mostram aquilo que cada campanha deseja destacar.
O debate ao vivo é diferente.
Existe pressão, adversário, pergunta inesperada, informação incômoda e pouco tempo para decidir como reagir.
Por isso, alguns minutos de confronto podem revelar aspectos que horas de propaganda eleitoral não conseguem mostrar.
Na noite de quinta-feira, Arruda e Cappelli tiveram a oportunidade de demonstrar como respondem quando discordam frontalmente de mulheres que exercem o papel de questionar, mediar e cobrar explicações.
E foram justamente essas reações que acabaram chamando atenção.
Não se trata de blindar jornalistas
Seria errado transformar esta análise em uma defesa de que jornalistas não possam ser questionados. Podem e devem.
A credibilidade da imprensa depende da possibilidade de seus erros serem apontados e corrigidos.
Se uma informação apresentada durante o debate estiver errada, cabe ao candidato demonstrar o erro. Se houver uma investigação arquivada, apresente o arquivamento. Se uma decisão judicial tiver sido interpretada equivocadamente, mostre a decisão.
Isso fortalece o debate público.
Ataques pessoais fazem o contrário. Eles deslocam a discussão do fato para a pessoa. Quando isso acontece em um debate eleitoral, o eleitor termina sabendo menos sobre aquilo que deveria ser esclarecido.
Apontar os sinais de machismo nessas reações também não significa proibir o contraditório. Significa cobrar que mulheres jornalistas recebam o mesmo respeito profissional que seria esperado diante de qualquer outro entrevistador.
O eleitor também escolhe comportamento
Uma eleição para governador não é apenas uma disputa de currículos e propostas.
O vencedor terá poder político, orçamento bilionário, milhares de servidores sob sua administração e influência direta sobre decisões que afetam a vida de milhões de pessoas.
Também terá de conviver com fiscalização, perguntas difíceis, oposição, órgãos de controle, decisões judiciais desfavoráveis e uma imprensa que nem sempre publicará aquilo que o governo gostaria de ler.
É por isso que as cenas protagonizadas por Arruda e Cappelli não deveriam ser reduzidas a simples bate-bocas de debate.
Elas acrescentaram uma informação àquela eleição. Não sobre saúde, segurança ou transporte, mas sobre comportamento, respeito e capacidade de lidar com o contraditório — especialmente quando ele vem da voz de uma mulher.
Depois que os microfones são desligados, propostas podem ser relidas e números podem ser conferidos. A maneira como alguém se comportou diante de jornalistas mulheres, porém, também fica registrada.
E talvez seja justamente por isso que as reações de Arruda e Cappelli devam continuar incomodando o eleitor.
