Um questionamento sobre a passagem de Ricardo Cappelli (PSB) pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) terminou em um dos momentos mais constrangedores do debate entre candidatos ao Governo do Distrito Federal promovido pelo Metrópoles na noite desta quinta-feira (10/9).
Questionado pela jornalista e colunista Andresa Matias sobre investigações relacionadas à sua gestão na agência, Cappelli elevou o tom, partiu para ataques pessoais contra a profissional e precisou ser interrompido mais de uma vez pela condução do debate.
Andresa estava no evento para exercer uma função jornalística: fazer uma pergunta ao candidato. Cappelli, por sua vez, estava ali como candidato ao cargo de governador, submetido ao escrutínio público sobre atos de sua trajetória administrativa.
Ainda assim, boa parte da resposta acabou deslocada do assunto de interesse público apresentado pela jornalista para ataques à própria profissional.
Pergunta era sobre a ABDI
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Andresa questionou Cappelli sobre apurações relacionadas ao possível uso da estrutura da ABDI durante sua gestão para promover sua pré-candidatura ao Governo do Distrito Federal.
A jornalista mencionou Ministério Público, Polícia Federal e Tribunal de Contas da União (TCU) e perguntou se, caso eleito governador, Cappelli reproduziria práticas que estão sob questionamento.
O tema não é novo.
O Blog da Cris mostrou em agosto que um contrato de comunicação da ABDI, que chegou a R$ 8,1 milhões após aditivo, está sob análise do TCU. A área técnica apontou “indícios de desvio de finalidade”, enquanto a ABDI e a empresa contratada negaram promoção pessoal ou político-partidária.
O processo ainda não teve decisão definitiva de mérito que reconheça irregularidade ou responsabilize Cappelli. O relator, ministro Bruno Dantas, havia determinado análise prioritária do mérito das justificativas apresentadas.
Também existe requerimento apresentado pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF) no Senado pedindo informações sobre denúncias de possível uso indevido da estrutura da ABDI em benefício da pré-candidatura de Cappelli. O requerimento aparece oficialmente como em tramitação.
Portanto, havia um assunto objetivo de interesse público a ser respondido pelo candidato.
Cappelli direciona resposta à jornalista
Cappelli começou a manifestação falando sobre outros episódios ocorridos no debate e, pouco depois, passou a questionar a própria Andresa.
O candidato afirmou que denúncias envolvendo a ABDI teriam sido apresentadas por Damares e pelo MDB e sustentou que o Ministério Público havia arquivado uma apuração.
Mas, em seguida, abandonou o mérito da pergunta e passou a atacar o histórico profissional da jornalista.
Cappelli acusou Andresa de ter produzido uma “fake news” quando trabalhava no Estadão, relacionou a profissional ao episódio conhecido como “dama do tráfico” e afirmou que ela teria sido demitida por espalhar informação falsa.
A partir dali, o comportamento do candidato transformou uma pergunta sobre sua atuação na administração pública em um confronto pessoal com quem estava fazendo a pergunta.
Mediação precisa intervir
A postura levou a condução do debate a interromper Cappelli.
A mediadora pediu expressamente que ele se concentrasse na pergunta e não utilizasse o tempo para ataques pessoais contra Andresa.
“Eu peço que o senhor se atenha ao que a jornalista do Metrópoles questionou o senhor e não utilize o seu tempo para fazer ataques à pessoa dela”, advertiu.
Mesmo depois da intervenção, Cappelli insistiu.
Afirmou que Andresa seria sua “desafeta” e relatou que ela teria o chamado de “canalha” em um encontro anterior.
Independentemente da existência ou não de divergências anteriores entre os dois, naquele momento Andresa não estava no palco como adversária política de Cappelli. Estava trabalhando como jornalista e formulando uma pergunta relacionada à trajetória administrativa de um candidato ao Governo do Distrito Federal.
Trazer uma suposta desavença pessoal para aquele espaço não respondia ao questionamento apresentado.
“Pare de mentir, Andresa”
Depois da primeira resposta, Andresa recebeu novo tempo e contestou a versão apresentada pelo candidato.
A jornalista afirmou que as investigações mencionadas por ela não haviam sido arquivadas e voltou ao ponto central: diante das suspeitas relacionadas à estrutura da ABDI, Cappelli reproduziria esse modelo caso chegasse ao Governo do Distrito Federal?
A reação do candidato foi novamente direcionada à profissional.
“Pare de mentir, Andresa. Não insista em mentira”, disparou Cappelli.
Em seguida, voltou a mencionar a passagem da jornalista pelo Estadão.
A insistência nos ataques pessoais obrigou a condução do debate a intervir novamente.
Metrópoles sai em defesa da jornalista
Na segunda intervenção, a mediação foi ainda mais enfática.
A condução ressaltou que Andresa Matias é jornalista e colunista do Metrópoles, mencionou sua trajetória profissional e afirmou que ela havia apresentado dados, fatos e datas para formular a pergunta.
Também pediu novamente que Cappelli utilizasse seu tempo para responder ao questionamento, e não para atacar a pessoa da jornalista.
A organização ressaltou ainda que o Metrópoles fazia uma cobertura isonômica dos candidatos e lembrou ao próprio Cappelli que ele mantém relação com o veículo como fonte.
Foi necessário, portanto, interromper reiteradamente um candidato ao Governo do Distrito Federal para lembrá-lo de uma regra básica daquele espaço: responder ao questionamento jornalístico sem transformar a profissional responsável pela pergunta no alvo do debate.
Jornalista virou alvo; pergunta ficou em segundo plano
O episódio chama atenção justamente pela inversão de papéis.
É Cappelli quem disputa um cargo público e apresenta ao eleitor suas credenciais para administrar o Distrito Federal. Questionamentos sobre sua passagem por uma instituição financiada com recursos públicos fazem parte do escrutínio natural de quem pretende governar a capital do país.
Andresa estava ali para perguntar.
Ao reagir com acusações pessoais, referências a episódios profissionais anteriores e a uma suposta desavença particular, Cappelli desviou o foco do assunto que deveria explicar ao eleitor.
O comportamento também merece atenção pelo contexto: uma jornalista mulher, exercendo sua atividade profissional diante de um candidato, precisou ter sua atuação defendida pela mediação enquanto era pessoalmente atacada por ele.
É possível — e necessário — que candidatos contestem premissas, números e informações apresentados por jornalistas quando considerarem que estão errados. Isso faz parte do debate público.
Outra coisa é substituir a contestação dos fatos por ataques à pessoa que formulou a pergunta.
Cappelli termina atacando o GDF
Após mais uma intervenção da mediação, Cappelli ainda reclamou da escolha de Andresa para questioná-lo.
“Eu não acho razoável colocar para me perguntar uma jornalista que me xingou. Ela me xingou no mês passado”, afirmou.
Depois disso, o candidato direcionou o restante de sua manifestação para críticas ao atual Governo do Distrito Federal.
Falou sobre BRB, saúde, educação e fez acusações contra a atual administração.
Cappelli negou irregularidades relacionadas à ABDI, afirmou que uma apuração teria sido arquivada e disse que as demais também seriam. Mas não desenvolveu uma resposta objetiva à questão formulada por Andresa sobre se práticas investigadas durante sua passagem pela agência poderiam ser reproduzidas em um eventual governo.
Caso da ABDI continua sob escrutínio
A reação de Cappelli não elimina o assunto que provocou o confronto.
O Blog da Cris revelou anteriormente que o contrato de comunicação da ABDI analisado no processo TC 023.815/2025-6 chegou a R$ 8,1 milhões depois de um aditivo de 25%.
A unidade técnica do TCU apontou indícios que deveriam ser aprofundados, incluindo possível uso da estrutura da ABDI em atividades pessoais do então presidente, gestão de impulsionamentos por servidores e terceirizados e natureza política de conteúdos promovidos.
ABDI e FSB apresentaram defesas e negaram promoção pessoal ou político-partidária. Não existe, até o momento, decisão definitiva do tribunal responsabilizando Cappelli.
Esse contexto torna ainda mais relevante a pergunta feita durante o debate.
Cappelli tinha diante de si uma oportunidade para explicar sua versão diretamente aos eleitores.
Preferiu gastar parte relevante do tempo confrontando a jornalista que fez a pergunta.
E foi justamente essa postura, mais do que a divergência entre candidato e repórter, que acabou se tornando um dos episódios mais tensos da noite.
