A dengue continua sendo um dos principais desafios de saúde pública no Brasil. Em busca de novas estratégias para enfrentar a doença, pesquisadores do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) estão desenvolvendo um projeto inovador que utilizará inteligência artificial para identificar áreas de maior risco de transmissão e antecipar possíveis surtos na capital paulista.
A pesquisa pretende integrar dados climáticos, indicadores ambientais, infraestrutura urbana e informações sobre a percepção da população em relação à vacinação. A proposta é compreender de forma mais ampla como diferentes fatores influenciam a proliferação do mosquito Aedes aegypti e o avanço da doença.
O estudo é coordenado pelo pesquisador Mauro César Cafundó de Morais, líder do Laboratório de Clima e Saúde do IPSP, e conta com a participação de instituições nacionais e internacionais, incluindo o Institut Pasteur de Paris.
Segundo Morais, o objetivo é entender como elementos ambientais, sociais e climáticos interagem para favorecer a transmissão da dengue dentro das cidades.
“Hoje sabemos que o risco não é distribuído de forma homogênea. Existem áreas muito específicas onde diversos fatores se combinam e criam condições mais favoráveis para a proliferação do mosquito e para a ocorrência da doença”, explica o pesquisador.
LEIA TAMBÉM
- In-Edit Brasil 2026 ocupa o CineSesc com documentários onde o tema central é a música
- Maior montanha-russa de lançamento da América Latina inicia testes no Cacau Park, em Itu (SP)
- Feirão Casa Paulista oferece mais de R$ 30,3 milhões em subsídios para compra do primeiro imóvel na Região Metropolitana de São Paulo
- Festa Junina de Todos os Povos leva cultura, integração e cidadania às Vilas Reencontro
- Programa da Prefeitura de São Paulo abre inscrições para artesãos participarem da Mega Artesanal 2026
Tecnologia para mapear riscos
Além de variáveis tradicionais, como temperatura e umidade, a pesquisa analisará fatores ainda pouco explorados em estudos epidemiológicos, entre eles ilhas de calor urbanas, acesso à água potável, cobertura de saneamento básico e disponibilidade de serviços urbanos.
A expectativa é que a combinação dessas informações permita identificar padrões que ajudam a explicar por que determinadas regiões registram índices mais elevados de dengue do que áreas vizinhas submetidas às mesmas condições climáticas.
Uma das principais inovações do projeto será a criação de mapas de risco em alta resolução espacial. Diferentemente dos sistemas atuais, que costumam trabalhar com dados agregados de municípios ou regiões inteiras, a nova ferramenta pretende identificar áreas vulneráveis em escalas muito menores, chegando ao nível de bairros e, futuramente, até de quarteirões.
Apoio à saúde pública
Os pesquisadores acreditam que a tecnologia poderá ajudar gestores públicos a direcionar melhor os recursos destinados ao combate à dengue.
Com informações mais precisas sobre o avanço do risco, equipes de vigilância poderão intensificar ações preventivas em locais estratégicos, como campanhas educativas, visitas de agentes de saúde e eliminação de criadouros do mosquito.
Outro objetivo é desenvolver sistemas de alerta precoce capazes de antecipar surtos antes que eles atinjam grandes proporções, permitindo respostas mais rápidas das autoridades de saúde.
Monitoramento das redes sociais
O projeto também utilizará uma técnica conhecida como escuta social para compreender como a população percebe a vacina contra a dengue.
Por meio da análise de conteúdos publicados em plataformas digitais, os pesquisadores pretendem identificar dúvidas, preocupações e tendências de comportamento relacionadas à imunização. A proposta é auxiliar na construção de estratégias de comunicação mais eficientes e fortalecer a confiança da população nas campanhas de vacinação.
Além do público em geral, o estudo também avaliará a percepção dos profissionais de saúde, considerados peças-chave na recomendação e adesão às vacinas.
Mudanças climáticas e saúde
A iniciativa está alinhada ao conceito de One Health (Saúde Única), que reconhece a conexão entre saúde humana, meio ambiente e condições climáticas.
O projeto surge em um momento de crescente preocupação internacional com os impactos das mudanças climáticas sobre doenças transmitidas por vetores. Nos últimos anos, a dengue expandiu sua presença para regiões anteriormente consideradas de baixo risco, inclusive em países da Europa e no sul da América do Sul.
Para os pesquisadores, ciência, tecnologia e análise de dados serão ferramentas fundamentais para ajudar governos e sistemas de saúde a se prepararem para os desafios trazidos pelas mudanças climáticas.
