Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros revelou como algumas serpentes desenvolveram, ao longo da evolução, uma sofisticada estratégia para atrair suas presas. O comportamento consiste em movimentar a ponta da cauda de maneira ritmada, fazendo com que ela se pareça com uma pequena larva ou outro animal.
A pesquisa analisou informações de mais de 200 espécies de víboras de diferentes partes do mundo. Os resultados foram publicados na revista científica Ethology Ecology & Evolution.
O trabalho é resultado da dissertação de mestrado da bióloga Aída Pereira Giozza, da Universidade de Brasília (UnB). A pesquisa foi orientada pelo professor Reuber Brandão, integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, em parceria com a professora Veronica Slobodian, do Departamento de Zoologia da UnB.
Também participaram pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
Cauda funciona como uma isca
A técnica investigada é conhecida como engodo caudal. A serpente ondula a ponta da cauda para simular os movimentos de uma presa pequena, atraindo animais como sapos, lagartos e aves para perto do alcance do bote.
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O estudo mostrou que três características costumam aparecer associadas durante a evolução das víboras: a cauda com coloração destacada, o movimento ritmado para atrair presas e a mudança na alimentação conforme o animal cresce.
Embora essa ligação já fosse discutida por cientistas, ainda não havia sido demonstrada de forma tão abrangente.
Segundo os pesquisadores, serpentes jovens costumam apresentar pontas de cauda mais coloridas e utilizar o movimento com maior frequência. Conforme crescem e alteram sua alimentação, algumas espécies deixam de usar a estratégia.
Pesquisa aponta falta de informações
Ao reunir dados de mais de 200 espécies, o levantamento também identificou lacunas importantes no conhecimento sobre a história natural das víboras. Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar os estudos de campo.
“Viperídeos são difíceis de estudar devido à dificuldade de encontrá-los em campo e ao medo que muitas pessoas têm deles. Compreender sua história natural e seu comportamento é fundamental tanto para a conservação dessas espécies quanto para entendermos como a evolução produz estratégias tão sofisticadas de sobrevivência”, explica Aída Pereira Giozza.
Importância para o equilíbrio ambiental
Apesar do temor provocado pelas serpentes, somente cerca de 17% das aproximadamente 400 espécies registradas no Brasil representam risco à saúde humana.
Esses animais exercem uma função importante no equilíbrio ambiental, principalmente no controle das populações de roedores. Seus venenos também possuem moléculas com potencial farmacológico.
Alguns medicamentos utilizados no tratamento de doenças cardiovasculares, por exemplo, surgiram a partir de pesquisas realizadas com compostos encontrados no veneno da jararaca.
A descoberta ajuda a explicar como diferentes características físicas e comportamentais podem evoluir de forma conjunta, produzindo estratégias de sobrevivência altamente especializadas na natureza.
