''Não é lua de mel. A Presidência é um casamento de quatro ou oito anos. Ou, quem sabe, por mais tempo, lá na frente'' - Jair Bolsonaro, presidente (foto: José Cruz/Agência Brasil)

Brasília – O presidente Jair Bolsonaro emitiu sinais trocados ontem a respeito de uma eventual reeleição. Primeiro sugeriu que poderia até mesmo ficar mais de oito anos no poder. Em seguida, porém, afirmou que ninguém deve governar pensando em se reeleger. As duas falas ocorreram durante evento de seu novo partido, o Aliança pelo Brasil, em Brasília.

Na primeira declaração, o presidente comparou a Presidência a um casamento. “Não é lua de mel. A Presidência é um casamento de quatro ou oito anos. Ou, quem sabe, por mais tempo, lá na frente”, disse, sem deixar claro o que significavam as expressões “mais tempo” e “lá na frente”.
Bolsonaro afirmou ainda que, neste “casamento”, os “fins serão o bem-estar deste povo”. “Já passei dos 60 (anos). A gente começa a não pensar de maneira diferente. A pensar com os pés do chão. O que nós queremos deixar para quem vem depois? O que eu quero deixar para a minha filha Laura?”, afirmou durante seu discurso.
Pouco depois, Bolsonaro ressaltou que um governante não pode se preocupar com reeleição. “Quem se preocupa com reeleição está fadado ao fracasso, começa a ser bonzinho com todo mundo”, disse, a uma plateia formada por simpatizantes e colaboradores do novo partido, que ainda está em fase de formação.

DECEPÇÃO

Durante a fala, o presidente também fez referências indiretas à relação com seu antigo partido, o PSL. “Como disse, é pesado. Decepções, ingratidões, gente que se revela depois que assume o poder, gente que pede cargo e responde: ‘Você já teve um cargo acima do nosso nome, o seu mandato'”, citou o presidente. “Mas nem isso satisfez uma parte daqueles que chegaram conosco para ocupar a Câmara e o Senado Federal”, acrescentou.

O presidente afirmou ainda que não existe “satisfação maior” do que ser bem recebido em qualquer lugar do Brasil. “Tenho compromisso com vocês, com a pátria e com Deus acima de tudo”, disse.

ASSINATURAS

O Aliança pelo Brasil, partido político que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quer tirar do papel, acredita que será possível ter todas as assinaturas necessárias a favor da criação da legenda já no início do próximo mês. Serão necessários 492 mil apoiamentos distribuídos proporcionalmente pelo país para que o registro possa ser feito junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Segundo o advogado Luís Felipe Belmonte, um dos principais articuladores da criação do Aliança pelo Brasil, as assinaturas necessárias serão recolhidas a tempo para que o partido participe das eleições municipais. “A meta era o Distrito Federal, cumprir em fevereiro, daqui a duas semanas. Acho que até fevereiro a gente resolve o Brasil. Vamos trabalhar para isso. Receber os apoiamentos eu garanto. Se tudo vai estar processado, vai depender”, disse Belmonte.
Belmonte também anunciou que os comandos regionais do Aliança, quando criados, serão submetidos a uma “peneira” pela cúpula. Simpatizantes têm reivindicado nas redes sociais o controle do partido, sem qualquer respaldo dos líderes.”O presidente já deixou claro que não tem lugar garantido pra ninguém. Tudo será analisado na hora certa. E tudo vai passar na peneira. Teve gente que foi no lançamento do partido, tirou foto e saiu de lá dizendo que ele é o responsável pelo partido no local. Isso é conversa furada”, afirmou.

‘ESCRAVO DA LEI’

O presidente Bolsonaro também afirmou em seu discurso que é “escravo da lei” e por isso sancionou o Orçamento de 2020 com o fundo eleitoral de R$ 2 bilhões – para não cometer crime de responsabilidade. A sanção do Orçamento foi anunciada ontem pela manhã.

“Tenho que cumprir a lei. Posso ser enquadrado no crime de responsabilidade. Somos escravos da lei. Algumas coisas sanciono contra minha vontade. Outras eu veto contra minha vontade também. O Brasil não é eu. São os outros poderes também”, afirmou.
Criado em 2017 para compensar as perdas impostas por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que, dois anos antes, havia proibido doações de pessoas jurídicas aos candidatos, o fundo eleitoral é abastecido com dinheiro do Tesouro Nacional. A distribuição da verba fica a critério das cúpulas partidárias, que, em geral, privilegiam políticos com mandato.
O valor de R$ 2 bilhões foi aprovado pelo Congresso em dezembro do ano passado. Contrariado com críticas sobre a destinação desses recursos, Bolsonaro tem pedido a apoiadores que não votem em candidatos que utilizam recursos públicos nas eleições. O problema é que o “boicote” pode prejudicar seus próprios aliados.
Fonte: Estado de Minas
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