Ricardo Cappelli (PSB) encerrou o primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Distrito Federal pedindo uma oportunidade ao eleitor e tentando resumir sua candidatura em duas palavras: “mudança” e “coragem”. Minutos antes, porém, havia protagonizado um dos movimentos mais curiosos da noite: saiu em defesa do direito de José Roberto Arruda (PSD) disputar novamente o comando do Palácio do Buriti.
A manifestação ocorreu durante um confronto em que Cappelli criticava o que classificou como tentativas de impedir determinadas candidaturas no Distrito Federal. Foi então que citou diretamente o ex-governador.
“Eles são autoritários, se acham donos do Distrito Federal. Querem impedir o Arruda de ser candidato”, afirmou Cappelli.
O candidato do PSB acrescentou que defende que o eleitor tenha o direito de escolher nas urnas quem considera a melhor opção para governar Brasília.
A defesa chama atenção pelo contexto político.
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Arruda não é um personagem externo à eleição que Cappelli pretende proteger em nome de uma discussão abstrata sobre democracia. É seu adversário direto na corrida pelo mesmo cargo e um dos nomes de maior peso eleitoral na disputa pelo Buriti.
Além disso, a situação jurídica do ex-governador continua cercada por uma discussão relevante sobre as mudanças promovidas na Lei da Ficha Limpa e o julgamento dessas alterações no Supremo Tribunal Federal.
Cappelli, portanto, encontrou tempo em seu primeiro grande confronto televisionado da campanha para defender justamente o direito eleitoral de um concorrente que pode disputar com ele votos para chegar ao segundo turno.
## Mudança com Arruda na urna
O episódio ganha ainda mais contraste quando comparado às considerações finais de Cappelli.
Depois de uma noite marcada por críticas ao atual sistema político do Distrito Federal, ao BRB e à administração local, o candidato pediu uma chance ao eleitor.
“Brasília nasceu pra andar pra frente, e ela tem que parar de andar pra trás”, afirmou.
Em seguida, apresentou a frase escolhida para encerrar sua participação:
“Meu nome é Ricardo Cappelli, mas pode me chamar de mudança, de coragem.”
A construção é politicamente interessante.
Cappelli quer ocupar o espaço da renovação e se apresentar como alguém de fora dos grupos tradicionais que administraram o Distrito Federal. Ao mesmo tempo, quando surgiu a discussão sobre Arruda, decidiu assumir publicamente a defesa do direito do ex-governador de voltar às urnas.
Defender que uma candidatura seja decidida segundo as regras eleitorais e pela Justiça é uma posição legítima. Mas, em uma campanha, escolhas também produzem símbolos.
E a imagem produzida naquele momento foi peculiar: o candidato que minutos depois pediria para ser chamado de “mudança” gastou parte de seu tempo defendendo a presença de um ex-governador na mesma eleição que pretende vencer.
## O interventor novamente em cena
Outro personagem acompanhou Cappelli durante praticamente todo o debate: o próprio Cappelli de janeiro de 2023.
O candidato voltou a lembrar sua passagem como interventor federal na segurança pública do Distrito Federal após os atos de 8 de janeiro e utilizou a experiência como uma de suas principais credenciais para pedir o comando permanente do GDF.
A referência apareceu já na apresentação. Cappelli lembrou que foi escolhido pelo presidente Lula para a intervenção e afirmou ter colocado “ordem” na cidade naquele momento.
Mais tarde, ao falar da saúde, recorreu novamente à experiência e prometeu uma intervenção no setor, estabelecendo uma ligação entre a missão extraordinária que exerceu na segurança pública e aquilo que pretende fazer caso seja eleito governador.
A passagem pela intervenção é, sem dúvida, uma experiência relevante no currículo de Cappelli. A questão política é outra: passados mais de três anos, até que ponto uma candidatura ao Governo do Distrito Federal consegue continuar apresentando uma missão temporária como uma de suas principais credenciais?
## Cappelli ainda precisa construir sua própria história no DF
O debate mostrou que esse talvez seja um dos desafios centrais de Cappelli durante a campanha.
Celina Leão explorou exatamente essa vulnerabilidade no confronto direto entre os dois. Questionou as tentativas eleitorais anteriores do adversário fora de Brasília, chamou-o de “forasteiro” e ironizou sua trajetória política.
Cappelli respondeu dizendo que justamente o fato de não integrar os grupos tradicionais do Distrito Federal lhe daria independência para promover mudanças.
É uma resposta politicamente compreensível. Mas ela aumenta a necessidade de o candidato apresentar uma identidade própria para Brasília.
Ao final do primeiro debate, Cappelli tentou fazer exatamente isso ao pedir uma chance ao eleitor e reivindicar para si as palavras “mudança” e “coragem”.
O problema é que a política também é feita de imagens.
E uma das imagens deixadas pela noite foi justamente esta: *o candidato que quer ser chamado de “mudança” defendendo, em rede de televisão, o direito de José Roberto Arruda estar novamente na disputa pelo Palácio do Buriti.*
