As campanhas Setembro Amarelo, Azul, Roxo e Verde colocam em evidência temas diferentes, mas que compartilham um desafio comum: assegurar o acesso de milhões de brasileiros à saúde, à educação, ao trabalho, à comunicação e à cidadania.
O debate envolve a prevenção ao suicídio, a valorização da comunidade surda, a conscientização sobre o Alzheimer e a inclusão das pessoas com deficiência.
Para o defensor público federal André Naves, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, essas questões precisam ser enfrentadas de forma integrada. Segundo ele, a ausência de acessibilidade e de políticas adequadas de cuidado provoca consequências que atingem não apenas os indivíduos, mas também suas famílias, as empresas e o poder público.
“Não podemos fatiar a dignidade humana. Uma pessoa com deficiência precisa de acessibilidade para estudar e trabalhar; uma pessoa surda precisa conseguir se comunicar em um hospital ou perante a Justiça; uma pessoa idosa com demência necessita de uma rede de cuidados que também ampare sua família”, afirma.
Números revelam dimensão do problema
Dados citados pelo especialista mostram a dimensão do desafio enfrentado pelo país. De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil registrou mais de 17 mil mortes por suicídio em 2023, reforçando a necessidade de ampliar as ações de prevenção e assistência em saúde mental.
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O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil. O número corresponde a 7,3% da população com dois anos ou mais. Desse total, aproximadamente 2,6 milhões apresentam dificuldade para ouvir, mesmo utilizando aparelhos auditivos.
A desigualdade também está presente na educação. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua mostram que a taxa de analfabetismo entre pessoas com deficiência chega a 19,5%. Entre aquelas sem deficiência, o índice é de 4,1%.
Essas barreiras educacionais acabam se acumulando ao longo da vida e reduzem as oportunidades de ingresso e permanência no mercado de trabalho.
Exclusão também pesa no bolso
Os efeitos econômicos da falta de inclusão aparecem na saúde pública, na educação, na assistência social, na Previdência e no mercado de trabalho.
Quando uma pessoa encontra barreiras que a impedem de estudar ou trabalhar, toda a sociedade perde. O impacto também ocorre quando um familiar precisa abandonar o emprego para cuidar sozinho de uma pessoa idosa ou com demência.
Problemas de saúde mental que não recebem prevenção e tratamento adequados ainda podem aumentar os afastamentos profissionais, reduzir a produtividade e pressionar os serviços públicos.
“Uma sociedade que não se prepara para envelhecer, que não elimina barreiras para pessoas com deficiência, que não garante comunicação acessível e que negligencia a saúde mental de sua população produtiva está criando um problema econômico para o futuro”, alerta André Naves.
Envelhecimento exige preparação
O envelhecimento da população brasileira torna o debate ainda mais urgente. A tendência é de aumento da demanda por diagnóstico, tratamento e cuidados continuados relacionados às demências.
Na avaliação do defensor público, cidades, empresas e órgãos públicos precisam adaptar seus serviços para atender uma população com uma parcela cada vez maior de idosos.
O especialista defende a construção de uma agenda conjunta entre governos, iniciativa privada e sociedade civil, reunindo ações de acessibilidade, saúde, educação, trabalho e proteção social.
“Inclusão não é caridade. É inteligência socioeconômica, eficiência e cumprimento de direitos. Quanto mais cedo o Brasil compreender isso, menor será o custo humano e econômico da exclusão”, conclui André Naves.
