Contas que não fecham, apostas on-line que deixam de ser diversão e a pressão por uma vida aparentemente perfeita nas redes sociais. Situações presentes no cotidiano podem aumentar a ansiedade, afetar o sono e o humor e contribuir para o sofrimento emocional.
Para o coordenador da linha de cuidado da psiquiatria do Hospital Anchieta, em Brasília, Fabio Leite, questões financeiras, comportamentais e sociais estão entre os fatores que podem repercutir na saúde mental.
Entre os pontos de preocupação estão as dificuldades financeiras. Para quem está endividado, a tensão envolve não apenas as contas, mas necessidades como alimentação, moradia, transporte, educação e saúde.
“A dificuldade financeira faz com que a pessoa fique mais ansiosa e preocupada com suas responsabilidades. Isso pode deixá-la mais tensa e nervosa, além de prejudicar o sono e o humor”, avalia.
Quando a aposta deixa de ser diversão
Outro ponto de atenção são as apostas on-line. Gastar além das próprias possibilidades, acumular dívidas, esconder o hábito da família e não conseguir parar podem indicar que o comportamento deixou de ser entretenimento.
“A pessoa fica presa àquilo e não consegue parar. Pode se endividar, ultrapassar os próprios limites e começar a esconder o comportamento dos familiares. Esse processo pode levar a quadros de ansiedade, depressão e até ideação suicida”, adverte.
Entre adolescentes e jovens, bullying, cyberbullying e a necessidade de aceitação pelos pares também podem provocar sofrimento. Isolamento, irritabilidade, alterações no sono e na alimentação e comportamentos de automutilação estão entre os sinais que merecem atenção.
O psiquiatra também chama atenção para os homens, que podem ter maior dificuldade para expressar emoções e buscar ajuda. Padrões culturais que associam vulnerabilidade à fraqueza podem contribuir para que o sofrimento permaneça escondido.
Mudanças de comportamento exigem atenção
Alterações na rotina podem ajudar a identificar quando alguém não está bem. Perda de interesse por atividades antes prazerosas, afastamento de familiares e amigos, queda no rendimento profissional e cansaço frequente estão entre os comportamentos que devem ser observados.
“Uma das coisas que mais chamam a atenção é quando a pessoa perde muito o próprio jeito de ser. Ela se desinteressa do que sempre gostou, perde o vínculo social e fica mais distante”, pontua.
Esse sofrimento nem sempre é compartilhado com quem está por perto e pode ser intensificado pela comparação no ambiente digital. A exposição a uma vida marcada apenas por felicidade, viagens, sucesso e realização pode aumentar a sensação de inadequação de quem já atravessa um período de fragilidade emocional.
Diante de alterações persistentes, familiares e amigos podem ter papel importante ao oferecer acolhimento, carinho e espaço para o diálogo, sem julgamentos. A orientação é incentivar a procura por profissionais da psicologia ou da psiquiatria para avaliar a necessidade de acompanhamento e o tratamento mais adequado.