Os impactos da pandemia na saúde mental continuam presentes no cotidiano das escolas públicas brasileiras. Em Ceilândia, ansiedade, automutilação, exaustão emocional e dificuldades de aprendizagem tornaram-se desafios constantes para estudantes e educadores. Diante dessa realidade, um projeto desenvolvido pela Universidade de Brasília (UnB) vem promovendo uma transformação significativa ao unir educação, saúde pública e comunidade em uma ampla rede de acolhimento.
Batizada de “Tecendo o Amanhã”, a iniciativa é desenvolvida no campus Ceilândia da UnB e atua de forma integrada em escolas públicas e unidades básicas de saúde da região. O projeto é coordenado pelas professoras Josenaide Engracia dos Santos, Daniela da Silva Rodrigues, Flávia Mazitelli e Sarah Raquel Almeida Lins, com financiamento da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), por meio de emenda parlamentar. A Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) é responsável pelo apoio administrativo e financeiro.
Projeto nasceu da convivência com a comunidade
O “Tecendo o Amanhã” surgiu a partir da experiência acumulada em ações de extensão universitária realizadas desde 2014 no Sol Nascente. Durante esse período, pesquisadores acompanharam de perto a realidade de famílias, escolas e equipes de saúde, identificando um crescimento expressivo dos casos de ansiedade, depressão, comportamento suicida e transtornos do neurodesenvolvimento entre crianças e adolescentes.
Segundo a coordenadora do projeto, professora Josenaide Engracia dos Santos, a demora para o acesso ao atendimento especializado foi um dos fatores que impulsionaram a criação da iniciativa.
“Observamos um aumento significativo da demanda em saúde mental e um tempo de espera de até quatro anos para atendimentos especializados de crianças neurodivergentes. Isso nos inquietou profundamente e motivou a criação do projeto”, afirma.
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Atendimento especializado para crianças neurodivergentes
Uma das principais frentes de atuação do projeto é dedicada ao acompanhamento de crianças e adolescentes neurodivergentes, incluindo casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH e transtornos de aprendizagem.
Os atendimentos são realizados na UBS 01 de Ceilândia, localizada no Sol Nascente, por uma equipe multiprofissional formada por profissionais da saúde e estudantes extensionistas da UnB.
As ações envolvem diagnóstico precoce, acompanhamento terapêutico e orientação às famílias e às escolas, fortalecendo a inclusão e o desenvolvimento das crianças.
Até a primeira quinzena de maio de 2026, o projeto já havia realizado mais de 1.500 atendimentos nessa área.
“O diagnóstico precoce amplia as possibilidades de aprendizagem, autonomia e inclusão social dessas crianças”, destaca a professora.
Cuidado também chega aos professores
O projeto reconhece que cuidar da saúde mental dos educadores é essencial para fortalecer o ambiente escolar.
Por isso, promove rodas de conversa, práticas integrativas e espaços permanentes de acolhimento emocional destinados aos professores da rede pública.
Ao longo de 2025, cerca de 103 docentes participaram das atividades e relataram melhora no bem-estar, fortalecimento das relações no ambiente escolar e maior sensação de apoio emocional.
Juventude encontra espaço para falar e ser ouvida
Outra frente importante acontece no Centro de Ensino Médio 12 de Ceilândia (CEM 12), onde estudantes participam de rodas de conversa, oficinas e espaços permanentes de escuta.
Os encontros abordam temas como:
- autoestima;
- bullying;
- ansiedade;
- uso das redes sociais;
- relações familiares;
- projeto de vida;
- autocuidado.
Além das conversas, os intervalos escolares passaram a contar com atividades culturais, música, dança, jogos e arte coletiva, estimulando o protagonismo juvenil e tornando a escola um ambiente mais acolhedor.
Em 2025, aproximadamente 150 estudantes participaram das ações. Alguns deles ingressaram posteriormente na própria Universidade de Brasília e retornaram ao projeto como extensionistas.
“A escola precisa ser também um espaço de cuidado, e não apenas de desempenho e cobrança”, ressalta Josenaide.
Saúde mental também passa pelo enfrentamento das desigualdades
Para os coordenadores, discutir saúde mental em Ceilândia exige olhar para fatores que vão além do ambiente escolar. Questões como desigualdade social, violência, insegurança alimentar e vulnerabilidade econômica influenciam diretamente o desenvolvimento emocional de crianças, adolescentes e profissionais da educação.
Mais do que oferecer atendimento psicológico, o “Tecendo o Amanhã” busca fortalecer vínculos comunitários e construir uma rede permanente de apoio entre universidade, escolas, serviços de saúde e famílias.
“Nós queremos contribuir para um futuro em que jovens, famílias e profissionais da educação tenham mais condições de sonhar, permanecer na escola e cuidar da saúde mental”, conclui a coordenadora.
