Pular para o conteúdo principal
agênciaBrasil
radioAgência
rádioMEC
rádioNacional
- MEC publica calendário do Censo Escolar da Educação Básica 2026
- Inscrição automática para alunos do 3º ano da rede pública no Enem
- Iniciativas buscam promover o acesso e a permanência de mães na ciência
- Fies 2026: MEC convoca candidatos da lista de espera até 29 de maio
- Segunda etapa do Revalida será realizada neste fim de semana
tvBrasil
|
carta de serviços
|
transparência
POR – Português
ENG – English
ESP – Español
Últimas Notícias
|
Cultura
Direitos Humanos
Economia
Educação
Esportes
Geral
Internacional
Justiça
Meio Ambiente
Política
Saúde
Versão em áudio
No início da década de 1990, um grupo de artistas insatisfeitos com a estagnação cultural em Pernambuco elaborou o manifesto Caranguejos com Cérebro, dando origem ao movimento manguebeat, que mesclou maracatu, reggae, hip hop e tecnologia.
Nesse contexto, um grupo de professores do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (CIn-UFPE) decidiu criar um centro de inovação tecnológica com o objetivo de reter talentos de estudantes e profissionais de diversas áreas. Assim, em 1996, foi fundado o Centro de Estudos Avançados do Recife (CESAR), que se tornou uma das sementes do que hoje é o Porto Digital, um dos principais polos de inovação tecnológica do Brasil, abrigando quase 500 empresas de tecnologia na região do Recife Antigo.
O engenheiro e escritor Silvio Meira, um dos fundadores do CESAR, retornou ao Conselho de Administração da instituição 30 anos após sua criação.
>> Siga o canal dano WhatsApp
Durante as comemorações do aniversário do CESAR, Meira comentou sobre sua decisão de voltar. “Com a inteligência artificial, uma invenção que só encontra precedentes na criação dos tipos móveis, por Gutenberg, em 1450, o CESAR tem que voltar às origens”.
Foi nesse espírito de resgate que Silvio Meira conversou com asobre os avanços da inteligência artificial e o papel das pessoas nesse processo de transição.
Você tem afirmado que a inteligência artificial é o novo grande desafio da humanidade. Por quê?
Silvio Meira: A inteligência artificial impacta a capacidade cognitiva e repetitiva dos seres humanos. Temos três tipos de inteligência: a informacional, que é nossa capacidade de captar, processar, armazenar, recuperar e usar informações para tomar decisões; a social, que diz respeito à articulação com outras entidades para resolver problemas; e a autônoma, que é o meu poder de decisão. Eu poderia não ter decidido vir aqui agora, mas decidi vir.
O que a IA faz? A IA “imita a inteligência” informacional dos humanos. Tudo que fazemos que é cognitivo e repetitivo, a IA pode realizar de forma mais eficiente e a um custo muito menor. Esse é o tamanho do problema.
Pode dar um exemplo?
Meira: Vamos considerar um clínico geral típico: você chega, ele nem olha para você e solicita 76 exames. Após os exames, ele novamente não presta atenção em você e prescreve 22 medicamentos. Esse profissional é uma IA em si mesmo. Se o que ele faz é solicitar exames, analisá-los e relacioná-los com bulas de medicamentos, ele pode ser automatizado.
As inteligências artificiais já conseguem, por exemplo, escrever código, algo extremamente complexo para a maioria das pessoas não treinadas. Elas conseguem produzir 95% do código que os humanos escrevem, e fazem isso tão bem ou melhor do que eles. Ponto final.
O que sobra para os humanos?
Meira: Qual é o meu papel? É decidir se o código deve ser escrito ou não, determinar que código escrever, como escrever e para quem. Validar se o código foi escrito corretamente e se apresenta problemas de funcionalidade e segurança.
Meu trabalho se tornou muito mais complexo. Antes, eu apenas escrevia. Agora, entrego para uma máquina, que me retorna o código pronto, e eu preciso validar tudo isso.
Se é tão eficiente, por que é necessário validar?
Meira: Eu não posso simplesmente confiar, pois a IA é uma máquina probabilística e pode errar. Suponha que a IA tenha 50 possibilidades diferentes de escrever um mesmo código, mas três delas estão erradas. Por alguma razão, ela escolhe um desses caminhos errados. O código pode parecer funcionar, estar bem estruturado, mas ainda assim estar incorreto.
Estamos discutindo isso com a atenção que merece?
Meira: Essa é uma discussão constante aqui no CESAR, no Centro Informático da UFPE e nas empresas do Porto Digital. Para você ter uma ideia, o primeiro evento do Porto Digital sobre o impacto da IA nos negócios de tecnologia ocorreu em 2018, não em 2023.
Como a IA está sendo utilizada na prática no Porto Digital?
Meira: Nas empresas que são spin-offs do CESAR, é simplesmente proibido trabalhar sozinho. Você deve ter um agente inteligente que você mesmo construiu, que trabalhe com você. Estou me referindo a todas as áreas: recursos humanos, atendimento, marketing, entre outras. Não é apenas incentivado; é uma proibição.
É proibido trabalhar sem IA?
Meira: Sim! Porque tudo que você fizer, que for repetitivo, deve ser realizado por um agente. Isso é mais barato e mais rápido.
Quando um cliente busca uma resposta, você pode estar em qualquer lugar. Se você codifica o que é repetitivo e coloca um agente inteligente para fazer, o cliente interage com esse agente e tem seu problema resolvido.
Quando a IA resolver todos os problemas, as pessoas ficarão sem trabalho?
Meira: Precisamos desaprender. Não podemos continuar fazendo as mesmas coisas, independentemente das mudanças. Vamos imaginar que estivéssemos em 1898, quando a indústria automotiva estava surgindo, mas o mercado ainda era dominado por cavalos, carroças e carruagens.
Em 1903, nos EUA, foram vendidos 11 mil automóveis e 2,5 milhões de carroças. Dez anos depois, em 1913, foram vendidos 3,6 milhões de carros e quase nenhuma carroça. Aqueles que possuíam carroças mantinham-nas, mas quem não tinha queria comprar um carro, não uma carroça.
O que acontece com a inteligência artificial? Uma empresa do Porto Digital, que antes demandava um time de dez pessoas e seis meses para concluir um trabalho de tecnologia e design, agora consegue fazer em um mês com quatro pessoas. Isso representa um aumento de produtividade de 15 vezes. Não é 15%; é 15 vezes. O que acontecerá com as empresas que não conseguirem acompanhar isso? Não conseguirão competir. É tão simples quanto isso.
E não é isso que pode acabar com as vagas de trabalho?
Meira: A inteligência artificial não é exatamente inteligente; é uma imitação. São algoritmos imitando nossa capacidade cognitiva repetitiva. Tudo que é cognitivo e repetitivo será ou já foi impactado pela inteligência artificial.
Em algumas áreas, isso representa 95% do trabalho humano. Em outras, muito menos, cerca de 10%. Em três anos, isso pode chegar a 100%. Mas isso não significa necessariamente a substituição de humanos.
Talvez isso aumente a capacidade dos humanos de resolver problemas mais complexos mais rapidamente, ou talvez articule mais humanos dentro do mesmo ambiente para resolver problemas que um único humano não consegue resolver.
No livro A Próxima Democracia, você defende a transparência radical e a política em plataformas digitais. Isso não parece contraditório? Se a plataforma controla, via algoritmo, o que eu vejo, o que eu gosto, o que eu compro e como eu voto, como falar em transparência radical?
Meira: A China criou uma camada de regulação nas plataformas que permite discutir qualquer coisa, desde que seja para resolver problemas. Isso é algo que não sabemos no Brasil, mas na China o dissenso é permitido, desde que seja para criar consensos e resolver problemas. O que não é permitido é a agressividade bruta, apenas para destruir ou atacar.
Esse é o princípio de funcionamento da sociedade chinesa. Lá, as plataformas têm uma camada de software que é de Estado. Se você deseja operar uma plataforma na China, deve incluir essa camada de estrutura, serviços e regulação.
A China possui uma regulação de videogames que proíbe crianças até 12 anos de jogar online. De 12 a 15 anos, há um limite de horas por dia, e de 15 a 18 anos, outro limite. Se as notas na escola caírem muito, a pessoa é proibida de jogar.
Isso não é censura?
Meira: Não. Isso é consenso. Por que eu deveria ter o direito de atacar você? A noção de censura e liberdade ocidental levada ao extremo é equivocada. Nas democracias, radicais, candidatos a ditadores e autocratas querem o direito de destruir a democracia. Como assim!? Você não tem esse direito.
É importante entendermos a semântica das palavras e expressões. Eu não tenho o direito de destruir a reputação e a vida das pessoas online sem motivo? Não tenho esse direito. E tentar fazer isso, mesmo que eu não consiga, deve ser tratado pelo sistema regulatório da sociedade, que é o sistema judicial.
Estabelecer limites. É isso a regulação?
Meira: O que eu fiz com meus filhos quando queriam jogar? Qual é a moedinha que tem que colocar no videogame? Cada 20 páginas lidas de um livro longo dava uma hora de videogame. E havia questionamentos: “Qual o papel de Capitu nesse capítulo que você leu?”
“Ah, porque Capitu não sei o quê…” Não sabe? Está inventando? Pênalti. Não pode jogar hoje e, para não tentar enganar novamente, não pode jogar amanhã, mesmo que leia. “Ah, eu não gosto de ler Dom Casmurro”. “E eu também não gosto de trabalhar”.
Temos eleições neste ano, sem essa regulação e com a inteligência artificial em alta. O que nos espera?
Meira: Enfrentamos a incompetência. Nos últimos dois mandatos e neste, inclusive. Deveria ter havido um esforço para regular plataformas, mas isso não ocorreu. Por incompetência de quem estava nos cargos para fazer isso.
Agora, enfrentaremos as consequências. Teremos um espaço que é um faroeste. Menos faroeste que nos EUA, pois a lei de proteção de dados estabelece proteções muito maiores do que a maioria dos países.
Mas precisamos fazer uma reflexão e cumprir nossas obrigações. Deveríamos ter regulado e não criamos espaço político para discutir a regulação. Isso não acontece por acaso; deve ser discutido com a sociedade, incluindo a participação das plataformas.
Os lobbies dificultam essa regulação?
Meira: O lobby, de vários lados, impediu que fizéssemos essa regulação, mas isso é apenas uma parte do problema. Nos mandatos anteriores, inclusive neste, houve leniência do Executivo. Sempre que houve alguma lei de regulação no mundo, a articulação foi do Executivo.
As forças de mercado, por sua própria natureza, não desejam regulação. Portanto, o Congresso, por iniciativa própria e devido aos lobbies, não criará uma iniciativa de regulação, a menos que tenha algum interesse.
Fonte: Agência Brasil
