Crise bancária no Paraguai provoca protestos e aumenta pressão por impeachment do presidente Santiago Peña

Intervenção no Ueno Bank afeta milhões de clientes, ameaça recursos de aposentadorias e provoca manifestações em Assunção. Oito dirigentes foram presos e presidente do Banco Central apresentou renúncia.

O Paraguai enfrenta uma grave crise financeira e política após o Banco Central do país determinar a intervenção no Ueno Bank, uma das instituições bancárias de maior crescimento nos últimos anos. A decisão, anunciada nesta terça-feira (3/11), provocou protestos nas ruas de Assunção, deixou milhões de clientes preocupados com seus depósitos e ampliou a pressão sobre o presidente Santiago Peña.

Nesta quarta-feira (4/11), manifestantes continuam exigindo a devolução dos recursos bloqueados e cobram explicações do governo sobre a situação financeira da instituição. Parte dos participantes também defende a abertura de um processo de impeachment contra o presidente paraguaio.

O Ueno Bank possui aproximadamente 2,9 milhões de clientes e administra recursos públicos e previdenciários. Com a intervenção, os serviços bancários foram suspensos, impedindo temporariamente o acesso de correntistas aos valores depositados.

Banco Central identifica problemas graves de solvência

Segundo o Banco Central do Paraguai (BCP), a decisão foi tomada após a identificação de irregularidades financeiras que comprometeram a capacidade da instituição de cumprir suas obrigações.

O órgão regulador informou que o índice de solvência do Ueno Bank caiu para menos de 50% do mínimo exigido pela legislação.

Diante da gravidade da situação, foi iniciado um procedimento de resolução bancária, mecanismo utilizado para administrar instituições financeiras em dificuldades, proteger os depositantes e reduzir os riscos ao sistema financeiro.

A medida inclui a avaliação dos ativos do banco e a atuação de interventores responsáveis por acompanhar o processo.

O Banco Central afirmou que a crise é específica do Ueno Bank e não representa, até o momento, um problema generalizado no sistema bancário paraguaio.

Protestos tomam ruas de Assunção

A intervenção provocou manifestações em diferentes pontos da capital paraguaia.

Centenas de clientes, aposentados e trabalhadores se concentraram nas proximidades do Panteão Nacional dos Heróis, do Congresso Nacional e da residência oficial do presidente Santiago Peña.

Os manifestantes exigem garantias de que receberão integralmente seus depósitos, além de transparência sobre a administração dos recursos financeiros.

Durante os atos, foram registrados momentos de tensão e confrontos entre manifestantes e policiais.

Um grupo de clientes organizou uma vigília nas proximidades do Congresso, onde permaneceu durante a madrugada desta quarta-feira.

Além da devolução dos recursos, os participantes cobram a responsabilização dos dirigentes da instituição e das autoridades que deveriam fiscalizar suas operações.

Crise atinge aposentadorias e recursos públicos

Um dos aspectos mais preocupantes da crise envolve os recursos do Instituto de Previdência Social do Paraguai (IPS).

A instituição mantém aproximadamente US$ 355 milhões em investimentos no Ueno Bank, valor equivalente a cerca de 9% de sua carteira de aplicações financeiras.

O banco também participa do pagamento de benefícios a aproximadamente 32 mil aposentados.

A situação gera preocupação sobre a disponibilidade dos recursos e a continuidade dos pagamentos previdenciários.

Além do IPS, instituições públicas, incluindo a Administração Nacional de Eletricidade e entidades vinculadas à usina binacional de Itaipu, possuem recursos relacionados ao banco.

Oito dirigentes são presos durante investigação

A crise financeira também desencadeou uma investigação criminal.

O Ministério Público paraguaio determinou a apuração de possíveis irregularidades na administração da instituição, incluindo operações financeiras suspeitas e eventuais responsabilidades dos dirigentes.

Oito integrantes da direção do Ueno Bank foram detidos, entre eles pessoas ligadas ao controle e à administração da instituição.

As autoridades investigam a situação patrimonial do banco e possíveis operações que tenham contribuído para o agravamento da crise.

As prisões representam uma nova etapa das investigações, mas ainda não significam condenação dos envolvidos.

Santiago Peña enfrenta pressão política

O episódio também colocou o presidente Santiago Peña no centro de uma crise política.

O mandatário manteve relações empresariais anteriores com o grupo econômico ligado ao Ueno Bank, circunstância que passou a ser questionada por parlamentares e setores da oposição.

Peña havia defendido publicamente a instituição diante de críticas e alertas sobre sua situação financeira.

Com o agravamento da crise, senadores anunciaram a intenção de apresentar um pedido de impeachment contra o presidente e o vice-presidente Pedro Alliana.

O governo sustenta que a situação do banco é um caso específico e defende medidas para proteger os depositantes.

Em meio à repercussão, Peña cancelou sua participação na Cúpula Ibero-Americana, prevista para ocorrer em Madri, na Espanha.

Presidente do Banco Central apresenta renúncia

A crise também provocou mudanças na direção da autoridade monetária.

Carlos Carvallo, presidente do Banco Central do Paraguai, apresentou sua renúncia após solicitação do presidente Santiago Peña.

Antes de assumir o comando do órgão regulador, Carvallo havia dirigido a instituição financeira que posteriormente se transformou no Ueno Bank.

A relação anterior com o banco intensificou os questionamentos sobre a fiscalização das operações financeiras.

Liana Caballero assumiu interinamente a presidência do Banco Central.

O que acontecerá com o dinheiro dos clientes?

O Banco Central informou que os depósitos estão protegidos pelo Fundo de Garantia de Depósitos até o limite de 228,3 milhões de guaranis por depositante, em cada instituição financeira.

O órgão também anunciou a previsão de um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis aos clientes, enquanto são definidos os procedimentos para a restituição dos demais valores.

A garantia não significa que todos os depósitos serão devolvidos imediatamente. Os valores superiores ao limite de cobertura dependerão dos mecanismos legais e dos resultados do processo de resolução.

A prioridade anunciada pelas autoridades é preservar os recursos dos clientes e impedir que a crise provoque instabilidade em outras instituições financeiras.

Enquanto isso, a população acompanha os desdobramentos das investigações, e o governo de Santiago Peña enfrenta um dos episódios de maior desgaste político de sua gestão.

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