Por Cris Oliveira
A confirmação de Luiz Pitiman como candidato a vice-governador na chapa de José Roberto Arruda (PSD) não caiu bem entre integrantes do Avante e abriu uma crise na aliança que vinha sendo construída para a disputa pelo Palácio do Buriti. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (6) pelo presidente do PSD-DF, Paulo Octávio, mas contrariou o grupo comandado por Gim Argello, que trabalhava pela indicação de Jorginho Argello para a vice.
Jorginho anunciou um “desembarque parcial” da campanha de Arruda. Nos bastidores, a leitura é de que o Avante, que esteve entre os primeiros partidos a apoiar o retorno do ex-governador ao jogo eleitoral, teria se sentido atropelado pela definição do vice. A expectativa construída durante as negociações era de participação da legenda na chapa majoritária.
A insatisfação pode chegar às candidaturas proporcionais. A tendência é que nomes do Avante na disputa pela Câmara Legislativa e pela Câmara dos Deputados sejam liberados para escolher quem apoiar ao Governo do Distrito Federal. Jorginho, inclusive, teria sinalizado uma possível aproximação com a candidatura de Leandro Grass (PT).
E o clima teria esquentado de vez em uma reunião envolvendo Gim Argello, Arruda, Pitiman e Paulo Octávio.
- Federação PSOL-Rede oficializa apoio à candidatura de Lula à reeleição
- Cappelli perde a queda de braço com o PT-DF, que mantém sua autonomia, confirma candidatura própria e frustra o plano do socialista de liderar uma chapa unificada
- Lei estabelece frete mínimo para transporte de cargas; entenda as mudanças
- PRD e Solidariedade decidem adotar posição de neutralidade na eleição presidencial
- Lula considera irresponsável revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA
Segundo relatos de bastidores, houve cobrança sobre os entendimentos construídos anteriormente e forte insatisfação de Gim com a escolha do vice. O presidente do Avante teria sustentado que havia uma expectativa concreta de que seu grupo ocupasse o posto.
Mas Gim também teria precisado ouvir a voz do seu passado petista. Segundo fontes, José Dirceu teria entrado nas articulações e dado um ultimato ao presidente do Avante-DF. O teor e até mesmo os termos da conversa não foram confirmados pelos envolvidos, mas interlocutores apontam o episódio como mais um ingrediente da pressão em torno das alianças.
Do lado de Arruda, os problemas não teriam ficado restritos à escolha do vice. Segundo fontes, o ex-governador teria dado alguns “pitis” durante as negociações das candidaturas proporcionais. Um dos pontos de atrito teria sido Carol Fleury, que acabou seguindo com seu projeto de candidatura a deputada federal. Interlocutores relacionam o episódio a outras movimentações na montagem das chapas, inclusive a articulações atribuídas à ex-companheira de Arruda em outra composição eleitoral.
E há mais movimento no tabuleiro. Fontes da coluna afirmam que Paulo Octávio também teria aberto uma ponte com o PL em torno do projeto eleitoral do filho, que é candidato a deputado distrital pelo partido. Se confirmado, o movimento adiciona uma camada curiosa à crise: as três raposas já costuravam e articulavam fora das fronteiras do PSD.
Nos bastidores, esse conjunto de movimentos alimenta dúvidas sobre o grau de confiança que existia dentro do próprio PSD nas articulações conduzidas por Arruda e Gilberto Kassab. Afinal, enquanto a chapa era construída publicamente, aliados importantes mantinham ou buscavam alternativas em outras legendas.
É aí que o roteiro ganha contornos típicos da velha política brasiliense. Houve movimentação antecipada pelas ruas do DF, construção de alianças, aproximações partidárias e muita expectativa em torno de um projeto que, chegada a hora de dividir os espaços de poder, começou a revelar suas rachaduras.
Para críticos desse arranjo, o resultado se parece cada vez mais com um caríssimo jogo de faz de conta político: todos aparecem juntos enquanto interessa, mas cada grupo mantém uma porta lateral aberta para o caso de o projeto principal não funcionar.
Enquanto isso, o PSD tenta transmitir normalidade.
Arruda apresentou Pitiman destacando sua experiência administrativa e política. O escolhido já presidiu a Novacap, foi secretário de Obras, deputado federal e candidato ao Governo do Distrito Federal. Paulo Octávio também defendeu publicamente a indicação.
A fotografia dos bastidores, entretanto, é bem menos tranquila. A escolha que deveria encerrar a montagem da chapa majoritária abriu desgaste com o Avante, colocou apoios proporcionais em dúvida e revelou que parte dos aliados aparentemente já trabalhava com planos alternativos.
Entre Pitiman, “pitis”, ultimatos, desembarques e pontes construídas para outros partidos, a campanha mal começou e o palanque já parece pequeno para tanta articulação. Na política do DF, às vezes o problema não é descobrir quem está no mesmo barco é saber quantos já deixaram um bote salva-vidas preparado.
Após reunião com os candidatos do Avante, Gim Argello afirmou estar “magoado” com a escolha de Luiz Pitiman para a vice na chapa de José Roberto Arruda, mas garantiu que manterá seu apoio ao ex-governador. A decisão expõe uma situação curiosa nos bastidores: enquanto Gim permanece com Arruda, seu filho, Jorginho Argello, sinaliza apoio a Leandro Grass. Se antes mesmo do início oficial da campanha as alianças já apresentam caminhos diferentes dentro da própria família, o recado é claro: o jogo eleitoral nem começou — e o tabuleiro político do DF já está em movimento.
