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Na festa junina da escola na última semana, Lúcio, de 4 anos, se divertia, mas, em um momento seguinte, passou a reclamar do barulho da música. Por isso, resolveu não ficar mais no meio da roda.
“As professoras respeitaram. Ficaram ao lado e seguraram a mão dele. Depois, ele voltou e continuou. Eu achei tão bonito”, diz a mãe, a esteticista Rosângela Cardoso, de 50 anos. Lúcio tem diagnóstico de transtorno do espectro autista e frequenta o jardim de infância de uma escola pública no Distrito Federal.
O menino tem esse diagnóstico assim como o irmão, João, de 11 anos. Ambos gostam muito de ir para a escola. Rosângela entende que a cena na festa junina simboliza o que ela deseja para os meninos no ambiente escolar: respeito e inclusão. Esses temas estão no centro das preocupações em dias de visibilidade como hoje (18), Dia do Orgulho Autista.
Legislação
Respeito e inclusão não são favores prestados por uma escola, seja pública ou privada, em qualquer nível educacional. Trata-se de uma obrigação prevista na legislação brasileira, conforme explica a advogada Adriana Monteiro, de 50 anos, especializada na defesa de pessoas com deficiência.
Nem sempre essa foi a área de atuação dela. A advogada era especialista na defesa de mulheres vítimas de violência doméstica, mas trocou, há duas décadas, de abnegação por uma missão de vida após os dois filhos (ambos hoje adultos, uma de 25 e o outro de 23) serem diagnosticados com autismo.
“Eu descobri o quanto era difícil conseguir qualquer direito para uma pessoa com deficiência. E acabei migrando de área”, recorda. Ela ficou abismada ao saber que escolas em Brasília recusaram a matrícula da filha e sentiu a dor do filho ao experimentar bullying no lugar que deveria ser um ambiente de proteção.
Para a advogada, o Brasil possui uma excelente legislação voltada para a inclusão de pessoas com deficiência.
“Acompanhamos de perto o nascimento da Lei Brasileira de Inclusão, publicada em 2015. É robusta, mas ainda há ignorância sobre ela”, afirma.
Além dessa legislação, a Lei Berenice Piana instituiu, na prática, uma política nacional de proteção dos direitos da pessoa com autismo e garantiu direitos ao considerar o transtorno uma “deficiência persistente”.
Direito de exigir
A advogada Adriana Monteiro defende que as famílias precisam saber que têm o direito de exigir que a escola se comporte como uma rede de proteção.
“As famílias têm o direito de cobrar que a criança tenha materiais, provas e avaliações adaptadas. Tudo precisa ser adaptado à forma de aprendizado que vai trazer maiores frutos pedagógicos”, explica.
Segundo ela, a escola tem a obrigação de fornecer material pedagógico, aulas adaptadas e profissionais, além do professor, para que as crianças possam contar dentro de sala de aula. “Tanto de mediação ou apoio para alimentação, ir ao banheiro e todo suporte emocional que essa criança precisa ter”.
Adriana acrescentou que pessoas com autismo podem se desregular dentro de sala de aula e cometer atos que, às vezes, podem ser entendidos como atitudes que precisam ser repreendidas. “Mas há escolas que não fazem o dever de casa de saber como evitar as crises e de como preveni-las”.
Por isso, é importante que a unidade de ensino garanta a contratação de profissionais que atuem de forma individualizada com essa criança. “Todos nós, enquanto sociedade, somos responsáveis pelo que acontece com essa pessoa, que é vulnerável”. Assim, os custos devem ser divididos pela comunidade escolar.
Outro direito é que nenhuma escola, pública ou privada, pode negar a matrícula a uma criança com deficiência, incluindo autismo, conforme está previsto no artigo 8º da Lei Brasileira de Inclusão. “A escola também não pode suspender, expulsar ou tomar medidas de não inclusão em razão da deficiência”, afirma a advogada.
Espaços de denúncia
As queixas de eventuais violações podem ser denunciadas em uma delegacia de polícia, na Defensoria Pública ou no Ministério Público. Na história da família dela e de outras pessoas ouvidas pela, foi comum a ocorrência de, após a identificação de que o aluno a ser matriculado tem o espectro autista, a vaga “some”.
“A família não é obrigada a dar essa informação para a escola no ato da matrícula. Pode deixar para falar sobre isso depois que o aluno estiver matriculado”.
Inspirada pela experiência em casa com Pedro, hoje com 18 anos, a professora de química Joanna de Paoli se transformou em ativista e pesquisadora dos direitos da pessoa com autismo. Ela passou a capacitar professores para promoverem inclusão. “O que eu percebo é como a infraestrutura e a parte material de formação ainda seguem não condizentes com as necessidades e realidades desses alunos”.
A escola, um espaço público de direito de todos, ainda não apresenta, segundo ela, as condições de acesso para todos. “Os alunos que já estão na escola regular ainda não têm suas necessidades atendidas. Então, falta suporte”.
Segundo o que ela percebe e pesquisa, um desafio é que muitos alunos não alfabetizados ou com deficiência intelectual estão com dificuldades de serem incluídos nos anos finais da educação básica.
Adriana lembra que há carência de pedagogos alfabetizadores com especificidade nessas particularidades do desenvolvimento. “Como que eu vou incluir numa aula de física, de química, de biologia, um aluno que sequer está alfabetizado?”. Ela lamenta que a maior responsabilidade está nas costas dos professores, mas entende que falta a participação do Estado para formar equipes que realmente consigam atender a essas necessidades. Pior: há falta de continuidade nos trabalhos nas unidades públicas com a contratação de mais professores temporários e menos concursos, lamenta a professora Joanna de Paoli.
Depois da decepção
A administradora Patrícia Bonetti tem duas filhas com autismo (uma de 20 e outra de 8 anos) e experimentou a decepção de ouvir da direção de uma escola privada em Brasília que a mais nova estava convidada a se retirar da unidade. “Ela falou que um colégio maior seria melhor para a Bianca a fim de poder correr mais. Eu já tinha feito a matrícula e comprado material escolar”.
Ela também enfrentou negativas. A mais velha chegou ao ensino superior e cursa relações internacionais. Segundo apontam as pesquisadoras no tema, as faculdades também devem prover os recursos de inclusão, assim como são obrigadas as escolas em qualquer nível. “A faculdade dela é um lugar muito acolhedor e ela está adorando”.
Fonte: Agência Brasil
