O Paraguai enfrenta uma grave crise financeira e política após o Banco Central do país determinar a intervenção no Ueno Bank, uma das instituições bancárias de maior crescimento nos últimos anos. A decisão, anunciada nesta terça-feira (3/11), provocou protestos nas ruas de Assunção, deixou milhões de clientes preocupados com seus depósitos e ampliou a pressão sobre o presidente Santiago Peña.
Nesta quarta-feira (4/11), manifestantes continuam exigindo a devolução dos recursos bloqueados e cobram explicações do governo sobre a situação financeira da instituição. Parte dos participantes também defende a abertura de um processo de impeachment contra o presidente paraguaio.
O Ueno Bank possui aproximadamente 2,9 milhões de clientes e administra recursos públicos e previdenciários. Com a intervenção, os serviços bancários foram suspensos, impedindo temporariamente o acesso de correntistas aos valores depositados.
Banco Central identifica problemas graves de solvência
Segundo o Banco Central do Paraguai (BCP), a decisão foi tomada após a identificação de irregularidades financeiras que comprometeram a capacidade da instituição de cumprir suas obrigações.
O órgão regulador informou que o índice de solvência do Ueno Bank caiu para menos de 50% do mínimo exigido pela legislação.
- Terremoto de magnitude 5,6 atinge a Colômbia
- Eleitores dos EUA demonstram pessimismo em relação à economia
- Risco de invasão de Cuba pelos EUA é real, avalia embaixador
- Sob pressão de Trump, Cuba comemora aprovação na ONU contra bloqueio
- Christine Lagarde renuncia à presidência do Banco Central Europeu
Diante da gravidade da situação, foi iniciado um procedimento de resolução bancária, mecanismo utilizado para administrar instituições financeiras em dificuldades, proteger os depositantes e reduzir os riscos ao sistema financeiro.
A medida inclui a avaliação dos ativos do banco e a atuação de interventores responsáveis por acompanhar o processo.
O Banco Central afirmou que a crise é específica do Ueno Bank e não representa, até o momento, um problema generalizado no sistema bancário paraguaio.
Protestos tomam ruas de Assunção
A intervenção provocou manifestações em diferentes pontos da capital paraguaia.
Centenas de clientes, aposentados e trabalhadores se concentraram nas proximidades do Panteão Nacional dos Heróis, do Congresso Nacional e da residência oficial do presidente Santiago Peña.
Os manifestantes exigem garantias de que receberão integralmente seus depósitos, além de transparência sobre a administração dos recursos financeiros.
Durante os atos, foram registrados momentos de tensão e confrontos entre manifestantes e policiais.
Um grupo de clientes organizou uma vigília nas proximidades do Congresso, onde permaneceu durante a madrugada desta quarta-feira.
Além da devolução dos recursos, os participantes cobram a responsabilização dos dirigentes da instituição e das autoridades que deveriam fiscalizar suas operações.
Crise atinge aposentadorias e recursos públicos
Um dos aspectos mais preocupantes da crise envolve os recursos do Instituto de Previdência Social do Paraguai (IPS).
A instituição mantém aproximadamente US$ 355 milhões em investimentos no Ueno Bank, valor equivalente a cerca de 9% de sua carteira de aplicações financeiras.
O banco também participa do pagamento de benefícios a aproximadamente 32 mil aposentados.
A situação gera preocupação sobre a disponibilidade dos recursos e a continuidade dos pagamentos previdenciários.
Além do IPS, instituições públicas, incluindo a Administração Nacional de Eletricidade e entidades vinculadas à usina binacional de Itaipu, possuem recursos relacionados ao banco.
Oito dirigentes são presos durante investigação
A crise financeira também desencadeou uma investigação criminal.
O Ministério Público paraguaio determinou a apuração de possíveis irregularidades na administração da instituição, incluindo operações financeiras suspeitas e eventuais responsabilidades dos dirigentes.
Oito integrantes da direção do Ueno Bank foram detidos, entre eles pessoas ligadas ao controle e à administração da instituição.
As autoridades investigam a situação patrimonial do banco e possíveis operações que tenham contribuído para o agravamento da crise.
As prisões representam uma nova etapa das investigações, mas ainda não significam condenação dos envolvidos.
Santiago Peña enfrenta pressão política
O episódio também colocou o presidente Santiago Peña no centro de uma crise política.
O mandatário manteve relações empresariais anteriores com o grupo econômico ligado ao Ueno Bank, circunstância que passou a ser questionada por parlamentares e setores da oposição.
Peña havia defendido publicamente a instituição diante de críticas e alertas sobre sua situação financeira.
Com o agravamento da crise, senadores anunciaram a intenção de apresentar um pedido de impeachment contra o presidente e o vice-presidente Pedro Alliana.
O governo sustenta que a situação do banco é um caso específico e defende medidas para proteger os depositantes.
Em meio à repercussão, Peña cancelou sua participação na Cúpula Ibero-Americana, prevista para ocorrer em Madri, na Espanha.
Presidente do Banco Central apresenta renúncia
A crise também provocou mudanças na direção da autoridade monetária.
Carlos Carvallo, presidente do Banco Central do Paraguai, apresentou sua renúncia após solicitação do presidente Santiago Peña.
Antes de assumir o comando do órgão regulador, Carvallo havia dirigido a instituição financeira que posteriormente se transformou no Ueno Bank.
A relação anterior com o banco intensificou os questionamentos sobre a fiscalização das operações financeiras.
Liana Caballero assumiu interinamente a presidência do Banco Central.
O que acontecerá com o dinheiro dos clientes?
O Banco Central informou que os depósitos estão protegidos pelo Fundo de Garantia de Depósitos até o limite de 228,3 milhões de guaranis por depositante, em cada instituição financeira.
O órgão também anunciou a previsão de um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis aos clientes, enquanto são definidos os procedimentos para a restituição dos demais valores.
A garantia não significa que todos os depósitos serão devolvidos imediatamente. Os valores superiores ao limite de cobertura dependerão dos mecanismos legais e dos resultados do processo de resolução.
A prioridade anunciada pelas autoridades é preservar os recursos dos clientes e impedir que a crise provoque instabilidade em outras instituições financeiras.
Enquanto isso, a população acompanha os desdobramentos das investigações, e o governo de Santiago Peña enfrenta um dos episódios de maior desgaste político de sua gestão.

