Por Cris Oliveira
O PSD-DF tenta manter de pé sua aposta em José Roberto Arruda depois que o registro da candidatura do ex-governador passou a enfrentar uma pesada contestação na Justiça Eleitoral.
Em nota assinada pelo presidente regional da legenda, Paulo Octávio, e pela direção partidária, o PSD afirmou confiar que o registro será deferido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF). O partido sustenta que Arruda estaria amparado pela Lei Complementar nº 219/2025, que alterou as regras de contagem dos prazos de inelegibilidade.
A defesa procura extrair um ponto positivo da ação apresentada pelo Ministério Público Eleitoral: o reconhecimento da constitucionalidade da nova legislação. Isso, porém, não significa que o órgão concorde com a aplicação defendida por Arruda nem com a liberação de sua candidatura.
Ao contrário: a Procuradoria Regional Eleitoral afirma que o ex-governador permanece inelegível e pede que seu registro seja rejeitado.
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Segundo o Ministério Público, Arruda possui sete condenações por atos dolosos de improbidade administrativa, seis delas confirmadas em segunda instância. Para a Procuradoria, os efeitos dessas decisões ainda alcançam as eleições de 2026 e manteriam o ex-governador afastado das urnas até 2030.
A defesa discorda e sustenta que, pelas novas regras, o prazo de inelegibilidade terminou em junho deste ano. A palavra final caberá à Justiça Eleitoral. Em 2022, Arruda já teve uma candidatura barrada pelo TRE-DF.
Um “pseudogolpe” para alimentar a militância
Enquanto o processo segue seu curso, a estratégia política parece clara: transformar um problema jurídico previsível em uma narrativa de perseguição.
Para o eleitor arrudista mais fiel, o consolo oferecido é a ideia de um suposto golpe contra o candidato. Fala-se muito em perseguição e pouco sobre os erros, as condenações e as escolhas políticas que colocaram Arruda novamente diante da possibilidade de ser impedido de disputar uma eleição.
É uma inversão conveniente.
Em vez de explicar por que lançou um candidato cercado por tamanho risco jurídico, o PSD tenta transferir o peso da responsabilidade para as instituições.
Mas a Justiça não criou as condenações de Arruda. O Ministério Público apenas apresentou os argumentos pelos quais entende que ele continua inelegível. Caberá ao TRE-DF analisar a defesa, interpretar a legislação e decidir.
A verdade liberta, como ensina o conhecido ditado. Neste caso, porém, a tentativa de substituir os fatos por uma narrativa de perseguição pode aprisionar o voto de quem acredita no ego político de uma liderança que ainda se considera indispensável para administrar Brasília e seus cofres públicos.
Arruda costuma recorrer ao passado e à comparação com os atuais governantes para afirmar que fez mais e melhor. Mas esse discurso também revela o tamanho da autoconfiança envolvida em uma candidatura que, desde o início, carregava o risco evidente de não chegar às urnas.
Campanha nova, estratégias antigas
Brasília assiste a uma campanha apresentada como novidade, mas conduzida com estratégias antigas: alimentar expectativas, mobilizar apoiadores, ocupar as ruas e investir na construção de uma candidatura mesmo diante da possibilidade concreta de o projeto ser interrompido pelos tribunais.
É o velho vale-tudo pelo poder vestido com novas cores, slogans e peças publicitárias.
A campanha avança enquanto a decisão não chega. Se for barrado, o partido poderá tentar transformar a derrota jurídica em combustível político, preservar parte do eleitorado e negociar o apoio do grupo a outro candidato ao Palácio do Buriti.
A questão é saber até onde essa estratégia pretende conduzir o eleitor e quanto custará mantê-la.
O Fundo Eleitoral também entra nessa conta
Há ainda um componente financeiro importante nessa equação. O PSD tem direito a aproximadamente R$ 421 milhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) em 2026, segundo a distribuição divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Esse dinheiro é público e destinado ao financiamento das campanhas. O valor de R$ 421 milhões, contudo, pertence nacionalmente ao partido. Não significa que o PSD do Distrito Federal ou a candidatura de Arruda terão acesso a todo esse montante.
O Diretório Nacional do PSD apresentou ao TSE seus critérios internos para a distribuição dos recursos no processo nº 0601228-44.2026.6.00.0000. Em decisão de 16 de agosto, o ministro Nunes Marques determinou a transferência do dinheiro para a conta indicada pela legenda e a publicação das regras de distribuição.
Até o momento, porém, não existe informação pública suficiente para afirmar quanto será destinado às campanhas do PSD no Distrito Federal ou, especificamente, ao projeto de Arruda para o Governo do DF.
Por isso, qualquer cálculo sobre quanto o ex-governador terá à disposição seria especulação. Não se pode transformar o total nacional de R$ 421 milhões em uma suposta verba já reservada à campanha local.
O que se pode afirmar é que o volume de recursos torna ainda mais importante acompanhar os próximos movimentos da direção nacional do PSD. Afinal, enquanto o partido administra uma parcela milionária do Fundo Eleitoral, sua principal candidatura no Distrito Federal permanece ameaçada por uma impugnação.
O Fundo Eleitoral de 2026 soma aproximadamente R$ 4,9 bilhões e é distribuído aos partidos conforme critérios relacionados à representação das legendas no Congresso Nacional. [TSE]
Gim percebeu o risco e procurou outro caminho
O presidente do Avante-DF, Gim Argello, parece ter percebido antes o tamanho da instabilidade. Seu filho, Jorge Argello, era cotado para ocupar a vaga de vice na chapa de Arruda, mas acabou preterido pela escolha de Luiz Pitiman, do próprio PSD.
Depois da mudança, Jorge e seu grupo decidiram apoiar a candidatura de Leandro Grass, do PT, embora o Avante tenha permanecido formalmente na coligação liderada pelo PSD.
A movimentação revela a elasticidade das alianças brasilienses. Gim, que chegou ao Senado como suplente na chapa do ex-governador Joaquim Roriz, conhecido pelo antipetismo, agora vê seu grupo buscar espaço justamente ao lado do PT.
Não parece uma mudança ideológica. Parece sobrevivência eleitoral.
Ao perceber que havia perdido a vaga de vice prometida ao filho e que a candidatura de Arruda continuava ameaçada judicialmente, Gim tratou de encontrar outro canto no tabuleiro.
Paulo Octávio já havia preparado uma saída
Agora, Paulo Octávio tenta recolher os cacos da composição que ajudou a construir. Publicamente, demonstra confiança na candidatura de Arruda. Nos bastidores, porém, o próprio projeto eleitoral de sua família já buscou uma rota mais segura.
André Kubitschek, filho de Paulo Octávio e candidato a deputado distrital, deixou o PSD, partido presidido pelo pai no Distrito Federal, e se filiou ao PL, legenda integrada à base política da governadora Celina Leão.
Enquanto Paulo Octávio permaneceu no PSD sustentando a candidatura de Arruda, o filho garantiu espaço eleitoral em outro partido e do outro lado da disputa pelo poder local.
O movimento ajuda a explicar a sensação de barca furada.
Publicamente, o comando partidário tenta demonstrar unidade e confiança. Na prática, aliados e familiares já construíram alternativas para o caso de o projeto naufragar.
O PSD ainda pode conseguir uma decisão favorável e manter Arruda na disputa. Mas, até lá, a candidatura continuará pendurada em uma batalha judicial que todos sabiam que viria.
A pergunta não é apenas se Arruda poderá ser candidato. É quanto dinheiro público o PSD pretende investir nessa aposta, qual será o destino da estrutura montada se o registro for negado e quem tentará comprar, ou vender os cacos políticos que restarem da candidatura.
