Por Cris Oliveira
Política tem dessas ironias que as urnas se encarregam de produzir.
Durante meses, Ricardo Cappelli tentou convencer o campo progressista de que a candidatura capaz de enfrentar Celina Leão deveria ser a dele. Defendeu a unidade, é verdade mas uma unidade construída em torno de seu próprio nome.
Ao mesmo tempo, apostou em uma campanha de imersão no Distrito Federal. Dormiu na casa de moradores, andou de ônibus, visitou equipamentos públicos e passou temporadas nas regiões administrativas. Queria demonstrar que conhecia a rotina de quem depende do transporte público, da saúde e dos serviços oferecidos pelo governo.
Ao final, porém, recebeu 36.828 votos, equivalentes a 2,23% dos votos válidos.
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Na noite de domingo, Cappelli anunciou que apoiará o candidato do PT Leandro Grass.
As urnas resolveram uma disputa de liderança que meses de articulação partidária não conseguiram encerrar.
Em agosto, quando PT e PSB ainda discutiam uma composição no Distrito Federal, Cappelli ofereceu ao PT a vaga de vice em sua chapa. Foi além: afirmou publicamente que o próprio Leandro Grass seria “muito bem recebido” nessa posição.
A mensagem política era clara. Grass poderia participar da composição, desde que não a liderasse.
O PT não aceitou.
Grass manteve sua candidatura ao Governo do Distrito Federal. Cappelli também decidiu seguir até o fim, e o campo progressista chegou dividido ao primeiro turno.
Então vieram as urnas.
O candidato que Cappelli pretendia receber como vice obteve um percentual de votos mais de quinze vezes superior ao dele.
Quem ocuparia a segunda posição na composição defendida pelo candidato do PSB tornou-se o nome que permanece na disputa pelo Buriti. Quem pretendia liderar passou à condição de apoiador.
A campanha da imersão não virou uma base eleitoral
A estratégia de Cappelli tinha uma lógica.
Sem uma eleição anterior disputada no Distrito Federal, precisava se tornar conhecido fora dos círculos políticos e administrativos de Brasília. Desde janeiro de 2025, passou a circular pelas cidades e a apresentar essas experiências como uma credencial política.
O ônibus virou símbolo. As estadias nas casas de moradores renderam relatos. As visitas aos serviços públicos ajudaram a organizar uma narrativa de proximidade.
Conhecer a realidade da população é necessário para qualquer pessoa que pretenda governar. Mas existe uma diferença entre compreender os problemas de uma cidade e convencer seus moradores de que se é a melhor opção para resolvê-los.
O resultado de Cappelli sugere que essa passagem não ocorreu na dimensão esperada por sua campanha.
Houve presença nas ruas, produção de conteúdo e uma pré-campanha longa. Faltou transformar esse esforço em uma base eleitoral capaz de sustentar a pretensão de liderar a oposição.
Cappelli entrou na disputa com o perfil daquilo que o velho vocabulário político costuma chamar de “cobra criada”: alguém experiente nos bastidores, com trânsito entre autoridades e conhecimento da máquina pública.
Sua passagem por postos importantes do governo federal e a projeção nacional após os episódios de 8 de janeiro estavam entre suas principais credenciais.
Mas experiência administrativa e articulação política não se convertem automaticamente em voto.
Cappelli tinha currículo, exposição e uma estratégia de rua construída com antecedência. Ainda assim, terminou com 2,23%.
O resultado não apaga sua trajetória profissional. Também não permite concluir, isoladamente, que todas as ações de campanha foram inúteis. Permite, porém, questionar o tamanho da força eleitoral que ele atribuía à própria candidatura.
Ao propor Grass como vice, Cappelli demonstrava acreditar que reunia melhores condições para comandar aquele campo político.
A resposta do eleitor foi muito diferente.
Dormir na casa do eleitor não garante seu voto
Talvez essa seja uma das principais lições da campanha: proximidade física e identificação política não são a mesma coisa.
Um candidato pode pegar o mesmo ônibus, visitar o mesmo posto de saúde e dormir na mesma comunidade. Essas experiências podem ampliar sua compreensão sobre a vida da população.
O voto exige algo além: confiança, reconhecimento e a percepção de que aquele candidato representa uma alternativa para governar.
As urnas indicam que Cappelli não conseguiu construir essa identificação em escala suficiente para ser competitivo.
O candidato esteve nas cidades. Mas a presença territorial, por si só, não entregou o resultado eleitoral que sua candidatura buscava.
De adversário a apoiador em uma noite
Não há nada de extraordinário em adversários do primeiro turno se unirem no segundo. PT e PSB pertencem ao mesmo campo político nacional, e a aproximação entre seus candidatos depois da votação é um movimento esperado.
O que torna a declaração de Cappelli relevante é o histórico que a antecede.
Os partidos chegaram separados à eleição do Distrito Federal porque não conseguiram definir quem deveria liderar a chapa. Cappelli insistiu em sua candidatura. Grass também.
O eleitor resolveu a discussão.
Na noite de domingo, depois da confirmação do segundo turno, Cappelli disse ter lutado “o bom combate”, agradeceu aos eleitores e anunciou:
“No 2º turno, votarei em Leandro Grass.”
A declaração encerra a disputa entre os dois por votos e abre uma nova etapa na relação política.
Agora, o desafio de Cappelli será definir como participará da campanha daquele que antes considerava adequado para ocupar sua vaga de vice.
As urnas reorganizaram a hierarquia
Durante uma campanha, candidatos podem reivindicar experiência, preparo e capacidade de articulação. É legítimo.
Mas chega o momento em que a narrativa encontra o voto.
A diferença não explica, sozinha, todas as razões do desempenho de cada candidatura. Para isso, seria necessário examinar fatores como estrutura partidária, alcance da comunicação e percepção dos eleitores.
Mas ela estabelece um limite claro para qualquer tentativa de apresentar Cappelli como o nome que deveria ter comandado o campo progressista nesta eleição.
A campanha acabou. A pergunta ficou.
Depois de meses de ônibus, visitas, conversas e estadias nas casas de moradores, por que Cappelli não conseguiu conquistar uma parcela maior do eleitorado?
Essa é a questão que sua estratégia precisa responder.
Porque conhecer o caminho até a casa do eleitor pode ajudar a construir uma candidatura.
Descobrir o caminho até o voto exige mais.
