Levantamento mostra que Cultura e Turismo receberam R$ 391 milhões a mais em emendas parlamentares do que a Saúde no DF

Estudo do Blog da Cris analisou todas as emendas destinadas entre 2024 e 2026 às principais unidades orçamentárias das áreas de Saúde, Cultura e Turismo

Por Cris Oliveira

As recentes mortes registradas na rede pública de saúde do Distrito Federal, somadas às investigações em andamento sobre possíveis falhas no atendimento e ao reconhecimento do próprio Governo do Distrito Federal de que a área enfrenta dificuldades estruturais, recolocaram a saúde no centro do debate político.

Nos últimos dias, deputados distritais cobraram providências, defenderam mudanças na gestão e voltaram a discutir a situação da rede pública. A fiscalização do Poder Executivo é uma das principais atribuições do Legislativo. Mas, além desse papel, os parlamentares também dispõem de um importante instrumento para influenciar as políticas públicas: as emendas parlamentares ao Orçamento.

Levantamento realizado pelo Blog da Cris, com base em dados oficiais do Sistema de Controle de Emendas Parlamentares (Siscon-EP), analisou todas as emendas destinadas, entre 2024 e 2026, ao Fundo de Saúde do Distrito Federal, à Fundação Hemocentro de Brasília, à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e à Secretaria de Estado de Turismo.

Os números revelam que as prioridades orçamentárias dos parlamentares foram bastante distintas ao longo dos três anos analisados.

Enquanto alguns reservaram parcela significativa de suas emendas para a saúde, outros concentraram a maior parte dos recursos em ações ligadas à cultura, ao turismo e à realização de eventos.

No período analisado, o Fundo de Saúde do Distrito Federal e a Fundação Hemocentro de Brasília receberam, juntos, R$ 159.881.899,00 em emendas parlamentares.

No mesmo intervalo, a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa recebeu R$ 267.408.396,16, enquanto a Secretaria de Estado de Turismo foi contemplada com R$ 283.833.640,00.

Somadas, Cultura e Turismo receberam R$ 551.242.036,16, valor R$ 391.360.137,16 superior ao destinado às unidades orçamentárias da Saúde consideradas neste levantamento.

O levantamento não mede o orçamento total de cada política pública, mas sim a forma como os próprios parlamentares decidiram distribuir suas emendas individuais entre essas áreas.

Distribuição das emendas revela prioridades distintas

A análise evidencia perfis bastante diferentes entre os parlamentares.

O deputado Jorge Vianna foi quem mais destinou recursos às unidades orçamentárias da Saúde no período analisado. Ao todo, direcionou R$ 39,43 milhões para a área, além de R$ 6,90 milhões para Cultura e R$ 5,41 milhões para Turismo.

Presença constante nos debates críticos sobre a saúde pública do Distrito Federal, o deputado Fábio Felix dividiu praticamente na mesma proporção os recursos de suas emendas entre Saúde e Cultura. No período analisado, destinou R$ 18,92 milhões para a Saúde, R$ 19,56 milhões para a Cultura e R$ 250 mil para o Turismo.

O levantamento também identificou quais parlamentares mais concentraram recursos na Secretaria de Turismo entre 2024 e 2026. O deputado Joaquim Roriz Neto lidera o ranking, com R$ 33,942 milhões destinados à área. Tendo Samambaia como principal reduto eleitoral, o volume de recursos destinados ao Turismo coloca em evidência um tema que deverá marcar o debate eleitoral: quais obras, ações e benefícios concretos essas emendas produziram para a população e onde esses investimentos efetivamente chegaram.

Em sentido oposto, alguns parlamentares concentraram praticamente todos os recursos nas áreas de Cultura e Turismo.

É o caso de Daniel Donizet, que destinou R$ 13,17 milhões para Cultura e R$ 28,69 milhões para Turismo, sem registrar emendas para as unidades orçamentárias da Saúde consideradas no levantamento.

Situação semelhante é observada com Iolando, que destinou R$ 17,90 milhões para Cultura, R$ 32,29 milhões para Turismo e apenas R$ 300 mil para a Saúde.

O deputado Joaquim Roriz Neto direcionou R$ 33,94 milhões para Turismo, R$ 16,67 milhões para Cultura e R$ 1,25 milhão para a Saúde.

Outro exemplo é Pepa, que destinou R$ 29,33 milhões para Turismo, R$ 6,55 milhões para Cultura e R$ 4,5 milhões para a Saúde.

Já Hermeto distribuiu R$ 15,26 milhões para Turismo, R$ 14,80 milhões para Cultura e R$ 1 milhão para a Saúde.

Os dados mostram que não houve um padrão único entre os parlamentares. Enquanto alguns priorizaram recursos para a saúde, outros concentraram suas emendas em setores voltados ao fomento cultural, ao turismo e à promoção de eventos.

As escolhas orçamentárias não substituem o papel fiscalizador exercido pelos deputados distritais nem impedem que cobrem providências do Poder Executivo. Ao mesmo tempo, as emendas parlamentares representam uma das formas mais objetivas de identificar as prioridades adotadas por cada mandato ao longo da execução do orçamento público.

Metodologia

O levantamento foi elaborado a partir dos dados públicos do Sistema de Controle de Emendas Parlamentares (Siscon-EP) do Governo do Distrito Federal.

Foram consideradas todas as emendas destinadas, entre 2024 e 2026, ao Fundo de Saúde do Distrito Federal, à Fundação Hemocentro de Brasília, à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e à Secretaria de Estado de Turismo.

A análise considera exclusivamente o campo “Valor da Emenda”, sem levar em conta os valores empenhados ou liquidados. Emendas canceladas com valor de R$ 0,00 não foram computadas.

Mais do que uma disputa por cadeiras, as eleições de 2026 representam uma oportunidade para que a população reavalie o papel da Câmara Legislativa do Distrito Federal. O mandato parlamentar não se resume a discursos inflamados na tribuna, vídeos para as redes sociais ou críticas ao governo de plantão. As emendas parlamentares revelam, na prática, onde cada deputado escolheu investir o dinheiro público e quais setores considerou prioritários.

https://sistemas.df.gov.br/SISCONEPCidadao/Emendas

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