Uma pesquisa recente da Anthropic, responsável pelo chatbot Claude, trouxe à tona um dado que chama atenção: países considerados emergentes ou mais pobres demonstram maior otimismo em relação à inteligência artificial (IA) do que regiões desenvolvidas.

O levantamento reuniu cerca de 79 mil respondentes e apontou que, em regiões como África Subsaariana (18%), Ásia Central (17%) e Sul da Ásia (17%), o número de pessoas que afirmam não ter qualquer preocupação com a IA é praticamente o dobro do registrado na América do Norte (8%), Oceania (8%) e Europa Ocidental (9%).

Tecnologia como oportunidade — ou ilusão?

Segundo os pesquisadores, esse comportamento estaria ligado ao contexto socioeconômico. Em países de menor renda, tecnologias emergentes tendem a ser vistas como oportunidades de ascensão social, e não como ameaça ao emprego — especialmente porque seus impactos ainda não são plenamente sentidos no dia a dia da população.

No entanto, essa leitura pode ser superficial.

O recorte invisível da pesquisa

Um ponto central que relativiza os resultados está na própria base da pesquisa: os entrevistados são usuários do Claude, o que não representa de forma homogênea toda a população.

No Brasil, por exemplo, dados do Datafolha mostram que o uso de ferramentas de IA está fortemente concentrado nas classes mais altas. Em 2025, o acesso a esse tipo de tecnologia chegou a 66% na classe A, contra apenas 23% na classe D. Entre pessoas com ensino superior, o índice é de 73%, enquanto cai para 18% entre aqueles com ensino fundamental.

Ou seja, quem responde à pesquisa, na prática, pertence majoritariamente às camadas mais privilegiadas da sociedade.

O otimismo é das elites — não dos países

Diante disso, o chamado “otimismo dos países pobres” pode, na verdade, refletir o olhar das elites desses países — grupos que historicamente têm maior capacidade de adaptação e aproveitamento em momentos de transformação tecnológica.

Esses segmentos tendem a enxergar a inteligência artificial como ferramenta de ganho, produtividade e vantagem competitiva, enquanto as camadas mais vulneráveis ainda estão distantes desse processo.

Uma nova linha de desigualdade

O avanço da IA evidencia uma nova divisão social: não apenas entre países ricos e pobres, mas dentro das próprias sociedades.

De um lado, estão aqueles que já utilizam a inteligência artificial em suas rotinas profissionais e cognitivas, antecipando mudanças no mercado de trabalho. Do outro, uma parcela significativa da população ainda sem acesso ou compreensão dessas ferramentas — mas que será impactada por elas de qualquer forma.

Impacto desigual e futuro incerto

A adoção desigual da IA tende a ampliar as diferenças sociais, já que os benefícios iniciais da tecnologia ficam concentrados em quem já possui renda, escolaridade e acesso digital.

Nesse cenário, o aparente otimismo observado em países emergentes não indica necessariamente uma redução das desigualdades globais. Pelo contrário, pode sinalizar a consolidação de uma nova fronteira: a que separa quem domina a inteligência artificial de quem ainda está à margem dela.


Por Cris Oliveira – Jornalista | Blog da Cris
Especialista em política, políticas públicas, empreendedorismo e cobertura institucional.