O uso das canetas emagrecedoras, baseadas em agonistas do GLP-1, tem transformado o tratamento da obesidade e acelerado a perda de peso de milhões de pessoas no mundo. Mas, enquanto o corpo emagrece, uma pergunta começa a surgir: por que o medo de engordar continua e, em alguns casos, até aumenta?
Para a neurocientista do comportamento alimentar Sophie Deram, o fenômeno revela um ponto pouco discutido: o emagrecimento não reprograma automaticamente o cérebro. “O corpo pode mudar rápido com o medicamento, mas o cérebro continua operando com base em memórias antigas de peso e fica assustado com a restrição, gerando estresse, medo e culpa. É como se a ameaça da perda de peso e a necessidade de reganho trouxesse essa dualidade interna. O medo do reganho de peso continua ativo, e é realidade, mesmo quando o peso já diminuiu”, explica. Os estudos estão todos mostrando um reganho após uso dessas canetas. Um estudo de Oxford confirmou um reganho 4x mais rápido que após dieta restritiva.
Do ponto de vista da neurociência, a relação com a comida é construída com paz e autorregulação e os ciclos de dieta, restrição e compensação que levam ao efeito sanfona alteram essa relação.
Estudos recentes mostram que os medicamentos à base de GLP-1 atuam diretamente em áreas cerebrais ligadas ao apetite e à recompensa, reduzindo a chamada “food noise” (o pensamento constante sobre comida) . Além disso, há evidências de que eles alteram a resposta do cérebro a estímulos alimentares e circuitos de recompensa ligados à dopamina .
Mas há um ponto-chave: reduzir o apetite não significa reconstruir a relação com a comida “Se a pessoa passou anos vivendo em restrição, o cérebro aprende que comida é um recurso escasso. Esse registro não desaparece só porque a fome diminuiu com o medicamento”, afirma Sophie.
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Embora muitos pacientes relatem alívio por “pensar menos em comida”, os profissionais da saúde começam a observar um efeito paralelo: uma vigilância constante sobre o corpo e o peso.
Uma revisão científica recente, publicada no Journal of Diabetes & Metabolic Disorders destaca que, além dos efeitos metabólicos, esses medicamentos também impactam comportamento, humor e percepção alimentar, podendo alterar a forma como o indivíduo se relaciona com a comida. “Quando o controle vem de fora, neste caso do remédio, e não de uma reconexão com os sinais internos, o risco é trocar a compulsão por rigidez. A pessoa come menos, mas pensa mais sobre isso”, explica.
Outro fenômeno observado é a dissonância entre o corpo real e a percepção interna. Mesmo após perder peso, muitos pacientes continuam com medo de comer certos alimentos, evitam situações sociais com comida e sentem culpa ao comer “normalmente”. Isso acontece porque o cérebro ainda está condicionado por experiências anteriores.
“O emagrecimento resolve o sintoma visível, mas não necessariamente a raiz emocional e comportamental. Sem esse trabalho, o medo de engordar continua”, diz Sophie.
A especialista destaca 3 sinais de que a relação com a comida ainda precisa de atenção (mesmo após emagrecer)
- Você sente medo constante de voltar a engordar
- Comer “fora do planejado” gera culpa ou ansiedade
- Você depende de controle externo (remédio, regras rígidas) para se sentir seguro
O uso de medicamentos pode ser um avanço importante no tratamento da perda de peso na obesidade, mas não encerra a conversa sobre comportamento alimentar e saúde. Para Sophie Deram, o ponto central é que o cérebro não acompanha a mesma velocidade das mudanças no corpo. “Quando não olhamos para a relação emocional com a comida, corremos o risco de tratar o peso, mas manter intacto o sofrimento. E é isso que mantém o medo de engordar vivo, mesmo quando o peso já mudou”, conclui.

Sobre Sophie Deram
Sophie Deram é nutricionista, autora best-seller, pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar e uma das principais vozes no Brasil sobre alimentação consciente e comportamento alimentar. Francesa naturalizada brasileira, é doutora pela Faculdade de Medicina da USP no departamento de endocrinologia. Ela coordena o projeto de genética do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC-FMUSP), com pesquisas em obesidade, obesidade infantil, nutrigenômica e neurociência do comportamento alimentar.
Autora dos livros “O Peso das Dietas”, “Os 7 Pilares da Saúde Alimentar” e “Pare de engolir mitos” – publicados pela Editora Sextante , Sophie é referência nacional em nutrição comportamental, práticas nutricionais com ciência e consciência, ou seja, humanizadas e baseadas em ciência. Em seus atendimentos, palestras e conteúdos, defende o fim das restrições e o resgate do prazer de comer, influenciando milhares de pessoas a repensarem sua relação com a comida.
