Por Cris Oliveira
A decisão da governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), de não participar do debate da TV Globo nesta quinta-feira (22) trouxe à tona uma discussão que vai muito além da disputa eleitoral: o direito de uma mulher se sentir desrespeitada e de ter sua percepção levada a sério.
Celina afirmou que, durante debates anteriores, foi interrompida, chamada de mentirosa e submetida a situações que considera ofensivas. Segundo a governadora, os encontros deixaram de ser espaços para apresentação de propostas e passaram a ser marcados por ataques pessoais e provocações.
Ainda no primeiro turno, quando disputava a eleição com outros candidatos, Celina já reclamava de ser o principal alvo dos questionamentos. Na avaliação de sua campanha, os adversários concentravam as críticas nela, enquanto pouco confrontavam uns aos outros.
É natural que uma governadora candidata à reeleição seja cobrada por sua gestão. Saúde, educação, segurança e transporte precisam ser discutidos. Mas existe uma diferença entre cobrar respostas de uma autoridade pública e transformar o confronto político em uma disputa marcada por ofensas e desqualificações pessoais.
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Quando o sofrimento de uma mulher é usado para questionar o de outra
Após as declarações de Celina, o candidato Leandro Grass (PT) passou a divulgar conteúdos nas redes sociais em resposta às acusações.
Em uma das publicações, a esposa e a mãe do candidato aparecem em depoimentos gravados separadamente, sem a presença dele. As duas falam sobre sua relação com Grass, destacando seu papel como marido, filho e futuro pai. A mãe aparece emocionada durante sua declaração, em uma tentativa de apresentar uma imagem pessoal do candidato diferente daquela associada às acusações de comportamento agressivo.
Em outro vídeo, mulheres questionam a afirmação de Celina de que teria sido desrespeitada. Uma delas afirma que vítima é ela, por ser pobre e precisar acordar cedo para conseguir uma senha de atendimento em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Outra se apresenta como trabalhadora e professora, também reivindicando para si a condição de vítima. Há ainda o relato de uma mulher que reclama da dificuldade para conseguir medicamentos.
São situações que merecem atenção, respeito e respostas do poder público. Mas uma questão precisa ser levantada: o sofrimento de uma mulher anula o de outra?
Uma mulher que precisa acordar de madrugada para buscar atendimento médico tem todo o direito de reclamar. Uma professora que enfrenta as dificuldades da vida de trabalhadora também. Mas por que essas experiências deveriam retirar de Celina Leão o direito de reconhecer um tratamento que considera ofensivo?
Não existe uma competição para determinar qual mulher sofreu mais ou quem merece ter sua experiência reconhecida.
E é justamente aí que surge uma contradição: utilizar o depoimento de outras mulheres para questionar ou diminuir a percepção de desrespeito manifestada por uma mulher também merece reflexão.
Violência política não escolhe partido
Durante todo o processo eleitoral, muito se falou sobre violência política contra mulheres, misoginia e a necessidade de garantir ambientes mais respeitosos para a participação feminina.
Esse compromisso, porém, precisa valer para todas.
Uma mulher não deixa de merecer respeito porque ocupa um cargo de poder. Tampouco perde esse direito porque pertence a determinado partido, governa uma cidade ou tem suas decisões questionadas.
Isso não significa que toda crítica a uma mulher seja violência política ou misoginia. Questionar decisões administrativas, cobrar resultados e confrontar informações são atitudes legítimas e necessárias em uma democracia.
O problema começa quando o debate sobre ideias e responsabilidades dá lugar à tentativa de desqualificar pessoalmente a mulher que ocupa aquele espaço.
Também é preciso reconhecer que a percepção de desrespeito não determina, por si só, que tenha ocorrido uma infração ou violência política nos termos da lei. Mas isso não impede que a situação seja discutida com seriedade.
O direito de dizer basta
Celina Leão pode ser criticada por sua decisão de não comparecer ao debate. Afinal, os encontros entre candidatos são oportunidades importantes para que os eleitores conheçam propostas e cobrem explicações.
Da mesma forma, Leandro Grass tem o direito de contestar as acusações feitas contra ele e apresentar sua versão dos acontecimentos.
O que merece reflexão é a tentativa de transformar a experiência relatada por uma mulher em algo sem importância simplesmente porque outras mulheres enfrentam problemas diferentes.
Ser pobre, trabalhadora, professora ou depender da rede pública de saúde não torna o sentimento de uma mulher mais legítimo do que o de outra. São realidades distintas, que não precisam ser colocadas em disputa.
O combate à violência política feminina não pode ser um discurso utilizado apenas quando a mulher envolvida pertence ao mesmo grupo político ou desperta simpatia.
Defender o respeito às mulheres não significa concordar com suas decisões, aprovar suas gestões ou apoiar suas candidaturas. Significa reconhecer que nenhuma divergência política elimina o direito à dignidade.
E talvez a pergunta mais importante dessa discussão seja justamente esta: se defendemos que as mulheres tenham voz, por que seria tão difícil ouvir uma delas quando afirma que não aceita mais ser tratada daquela maneira?
O respeito às mulheres na política precisa estar acima das disputas partidárias. Caso contrário, corre o risco de se transformar em apenas mais um discurso de campanha.

