Mais do que desiludidos com a política, eleitores deixam de votar, ano após ano, no Brasil, por se sentirem exaustos e solitários. A constatação é da Pesquisa Termômetro do Bem Viver, realizada por um projeto da Plataforma Avaaz em parceria com o Datafolha, divulgada esta semana.
Inédito, o estudo relacionou a ausência de vínculos comunitários e de contato com a natureza ao desinteresse na política, apontando esses fatores para explicar a ausência nas urnas.
Cerca de 30 milhões de eleitores – praticamente um em cada três – deixaram de votar nos últimos pleitos. Por trás da abstenção, em geral, a pesquisa encontrou o que chamou de epidemia de solidão, esgotamento mental e dependência digital.
Por outro lado, o estudo revelou que brasileiros “vinculados” consideram a democracia inegociável.
“Descobrimos que os ‘desvinculados’ estão em ciclo muito destrutivo”, explicou a diretora do Projeto Desapocalíptica, do Avaaz, Nana Queiroz.
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Segundo Nana, esse público busca a TV e as redes sociais “como uma espécie de anestesia para essa exaustão”.
A diretora pontuou ainda que as redes sociais no país mantêm pessoas em “bolhas” – círculos de usuários com opiniões semelhantes – além de alimentar “uma cultura de ódio”. Nesses casos, elas se sentem mais isoladas, desesperançosas ou culpadas por perderem tanto tempo nas redes sociais ou na TV.
“Quando essas pessoas se veem assim culpadas, exaustas e isoladas, elas acham que não têm poder de transformar o coletivo e é por isso que elas estão parando de votar”, analisou.
Quase metade dos brasileiros identificados com esse comportamento (47%) foram classificados na pesquisa como “desvinculados”. Segundo a investigação, são indivíduos que já deixaram de votar ou votam raramente. Três em dez desistiram totalmente de votar por essa falta de vínculo.
A juventude é quem mais se encaixa neste perfil. De acordo com a Termômetro do Bem Viver, os jovens entre 18 e 34 anos representam 44% dos desvinculados, sinalizando para a necessidade de ação. Apenas dois a cada dez jovens afirmam ter uma conexão comunitária e se sentir bem.
Nana Queiroz chama atenção para as jornadas de trabalho extenuantes, como a 6×1, que reduzem o tempo de lazer e para cultivar uma rede.
Para recuperar o vínculo, a recomendação é desenvolver as chamadas políticas de Bem Viver. Essas são ações que promovem também contato com a natureza, acesso à cultura, lazer e a cidades mais acessíveis, no geral, cita Nana.
“Dar bom dia para uma pessoa na padaria já influencia o seu nível de felicidade”, informou a diretora.
O contato com o meio ambiente é visto ainda como restaurador de saúde mental, principalmente em casos de ansiedade e tédio dos mais jovens.
Ações para conter a dependência digital também são necessárias. De acordo com ela, um exemplo bem-sucedido é o ECA Digital, que enfrentou o design viciante das plataformas, a rolagem infinita e os conteúdos inadequados para crianças e adolescentes.
“Se você quiser reconquistar essas pessoas, trazer às urnas, é preciso criar políticas que alterem a vida real delas, para que sintam que o voto tem um impacto real na vida delas”, frisou Nana.
A Termômetro do Bem Viver foi realizada com base em metodologia estrangeira, propondo olhar indicadores de qualidade de vida menos frequentes nas pesquisas com enfoque econômico e que investigam mais o acesso ao consumo, conforto material e o próprio desempenho da economia.
Fonte: Agência Brasil
