Por Cris Oliveira
Havia uma terra onde a comunicação era considerada um direito de todos. Nela, existiam grandes plantações, pequenos campos e trabalhadores que, diariamente, cultivavam a informação para que a verdade chegasse aos lugares mais distantes.
A lei daquela terra era clara: os pequenos também tinham o direito de participar da colheita. Não se tratava de favor, generosidade ou concessão dos poderosos. Era um direito conquistado e escrito nas regras daquela sociedade.
Mas, entre aquilo que estava escrito e aquilo que acontecia na lavoura, havia um campo profundamente DESIGUAL.
Os pequenos veículos de comunicação trabalhavam do nascer ao pôr do sol. Produziam notícias, informavam comunidades, fiscalizavam o poder e levavam ao povo aquilo que muitas vezes os grandes não conseguiam alcançar.
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Entretanto, quando chegava o tempo da distribuição das sementes, eram tratados como escravos da lavoura.
Tinham o dever de plantar, mas precisavam implorar pelo direito de colher.
Eram lembrados quando havia necessidade de espalhar mensagens, mas frequentemente esquecidos quando chegava o momento de reconhecer o valor do seu trabalho.
Enquanto alguns caminhavam livremente pelos celeiros, outros permaneciam diante dos portões, esperando que alguém lhes concedesse aquilo que a própria lei já lhes assegurava.
Naquela terra, havia também uma grande casa onde se guardavam os selos e as balanças.
Os selos certificavam caminhos percorridos. As balanças deveriam garantir que cada semente fosse distribuída segundo critérios justos, transparentes e conhecidos por todos.
Mas os trabalhadores começaram a fazer perguntas.
Quem decidia quais campos receberiam a chuva?
Quem determinava o valor de cada lavoura?
Por que alguns precisavam provar repetidamente que existiam, enquanto outros pareciam encontrar os portões sempre abertos?
E por que um direito garantido por lei, na prática, tantas vezes parecia depender da boa vontade de quem segurava as chaves?
Um dia, um velho agricultor reuniu os pequenos produtores e lhes disse:
“A pior escravidão de uma lavoura não está apenas nas correntes que prendem os braços, mas na dependência que tenta calar a voz de quem trabalha.”
E continuou:
“Quando o trabalhador precisa agradecer por receber aquilo que já é seu por direito, a justiça deixa de ser uma regra e passa a parecer um favor.”
Os pequenos compreenderam, então, que o verdadeiro problema não era o tamanho das plantações, nem o sucesso daqueles que produziam mais.
O problema era um campo onde as regras pareciam pesar de maneira diferente para cada agricultor.
Onde uns eram recebidos como donos da colheita e outros tratados como se devessem obediência eterna aos guardiões do celeiro.
Mas havia algo que os poderosos daquela terra não conseguiam controlar: a consciência de quem conhecia seus direitos.
Porque os pequenos veículos podiam não possuir os maiores campos, mas carregavam uma riqueza que nenhum celeiro poderia comprar: a liberdade de informar.
E, quando alguém sugeriu que seria melhor permanecer em silêncio para não perder as poucas sementes recebidas, o velho agricultor respondeu:
“Quem troca a própria voz por algumas sementes pode até sobreviver a uma estação, mas corre o risco de nunca mais conhecer uma colheita verdadeiramente livre.”
Naquela tarde, os trabalhadores compreenderam que não precisavam pedir privilégios.
Precisavam apenas exigir respeito às regras, transparência nas escolhas e dignidade no tratamento.
Porque nenhum veículo de comunicação deve ser tratado como servo de quem administra recursos que pertencem ao povo.
Dinheiro público não é propriedade de quem distribui. Direito não é favor. E liberdade de imprensa não pode ser moeda de submissão.
E assim nasceu a lição daquela terra:
Em um campo desigual, a injustiça não começa necessariamente quando alguém recebe mais. Começa quando os critérios deixam de ser claros e o trabalhador passa a acreditar que precisa se ajoelhar para receber aquilo que a lei lhe garante.
Afinal, quem cultiva a informação não nasceu para servir aos donos do celeiro.
