Cães e gatos: por que não podem receber os mesmos cuidados de saúde

Diferenças no metabolismo, na alimentação, no comportamento e na resposta aos medicamentos exigem abordagens veterinárias específicas

Eles dividem o sofá, disputam a atenção dos responsáveis e ocupam um espaço cada vez maior nas famílias brasileiras. A convivência pode ser harmoniosa, mas cães e gatos pertencem a universos biológicos distintos. Da alimentação ao comportamento, da forma de demonstrar afeto à maneira de metabolizar medicamentos, cada espécie reúne características que pedem cuidados específicos.

“Cães e gatos possuem necessidades nutricionais, comportamento, metabolismo e, principalmente, respostas aos medicamentos muito particulares. Quanto maior o conhecimento dos responsáveis sobre essas diferenças, melhor a qualidade de vida dos animais e mais seguros e eficazes se tornam os tratamentos”, explica a médica-veterinária e consultora da DrogaVET, Dra. Farah Ramalho.

Biologia e comportamento

Originados dos ancestrais de lobos, os cães passaram por um longo período de domesticação e desenvolveram intensa capacidade de convivência social e de interpretação de sinais humanos. Os gatos descendem do gato-selvagem-africano (Felis silvestris lybica) e se aproximaram das comunidades humanas atraídos pelos roedores presentes nas áreas agrícolas. Como seguiram uma trajetória diferente, conservaram maior autonomia e forte instinto de caça.

Essas diferenças permanecem na rotina. Cães tendem a buscar interação com mais frequência; gatos costumam valorizar previsibilidade, controle do ambiente e locais de refúgio. São tendências, não regras: idade, personalidade, experiências anteriores, saúde e manejo influenciam cada animal.

Na alimentação, cães são onívoros com forte adaptação ao consumo de alimentos de origem animal e conseguem utilizar nutrientes de fontes variadas quando recebem uma dieta completa e equilibrada. Gatos são carnívoros estritos e dependem de nutrientes encontrados em tecidos animais, como taurina, arginina, ácido araquidônico, vitamina A pré-formada e niacina.

A hidratação também merece atenção: muitos felinos ingerem pouca água espontaneamente e podem produzir urina mais concentrada. Diferentes pontos de água, recipientes limpos e alimentos úmidos, quando indicados pelo médico-veterinário, podem favorecer o consumo hídrico.

A comunicação segue códigos próprios. Cães combinam vocalizações, postura, cauda, orelhas e expressões faciais. Gatos emitem sinais mais sutis, como piscadas lentas, mudanças na posição das orelhas e das vibrissas (bigodes), vocalizações específicas e o hábito de esfregar o corpo em objetos e pessoas. Interpretar esses sinais reduz o estresse e fortalece o vínculo com o responsável.

Na farmacologia, espécie não é detalhe

A forma como cada organismo absorve, distribui, metaboliza e elimina um medicamento varia entre as espécies. Medicamentos seguros para cães podem representar riscos graves para gatos, e o contrário também é verdadeiro. Mesmo quando apresentam doenças semelhantes,  cães e gatos podem necessitar de princípios ativos, doses, intervalos e formas farmacêuticas diferentes. Peso é apenas um dos fatores: idade, condição clínica e outros medicamentos em uso também interferem na segurança do tratamento.

A ivermectina, por exemplo, é contraindicada para algumas raças caninas e seus cruzamentos, filhotes com menos de seis meses, fêmeas gestantes ou lactantes, cães com determinadas doenças hepáticas e neurológicas e animais com variantes no gene MDR1/ABCB1, pois apresentam maior risco de neurotoxicidade com determinadas doses de algumas lactonas macrocíclicas.

Para os felinos, há usos específicos, mas a margem de segurança depende muito da dose e da indicação. Formulações muito concentradas ou doses inadequadas podem causar intoxicação neurológica, com sinais como desorientação, falta de coordenação, tremores, alterações visuais, convulsões e redução do nível de consciência. A apresentação e a dose prescritas para outro animal nunca devem ser reaproveitadas.

O diclofenaco, anti-inflamatório comum na medicina humana, pode provocar lesões gastrointestinais e renais graves em cães e gatos. Não deve ser administrado sem prescrição veterinária. Já o carprofeno é empregado principalmente em cães. Seu uso em felinos é mais limitado e exige dose e intervalo específicos, pois dose, repetição e condição renal, hepática ou gastrointestinal podem aumentar o risco de reações adversas.

A permetrina, presente em alguns antiparasitários exclusivos para cães, é outro alerta. Em gatos, a exposição pode desencadear tremores, convulsões e alterações neurológicas potencialmente fatais. O risco inclui a aplicação indevida no felino e, conforme o produto, o contato próximo com um cão recém-tratado antes da secagem da área de aplicação.

“Esses exemplos mostram por que nunca se deve compartilhar medicamentos entre espécies. Mesmo quando os sinais clínicos parecem semelhantes, o que é seguro para um cão pode representar um risco importante para um gato”, alerta Farah.

Tratamento sob medida

Com o aumento da expectativa de vida dos animais de companhia e da convivência cada vez mais próxima com as famílias, cresce também a necessidade de tratamentos veterinários personalizados e seguros. Quando há prescrição e viabilidade farmacotécnica, a manipulação permite ajustar concentração, apresentação e sabor para facilitar a rotina. Biscoitos medicamentosos, molhos flavorizados, pastas orais, cápsulas, suspensões, sachês, géis transdérmicos e soluções dermatológicas, otológicas e oftálmicas estão entre as possibilidades. Nem toda via é adequada para qualquer princípio ativo; a decisão cabe ao prescritor, com avaliação técnica da farmácia.

Em situações selecionadas, diferentes princípios ativos podem ser reunidos em uma formulação, desde que exista compatibilidade e indicação clínica. A estratégia pode reduzir o número de administrações e favorecer a adesão, especialmente entre pacientes idosos ou com doenças crônicas.

“A adesão começa muito antes do efeito do medicamento. Ela começa no momento em que o animal aceita receber aquela medicação sem transformar cada dose em um momento de estresse para toda a família”, destaca a veterinária. Na medicina veterinária moderna, a individualização do tratamento considera não apenas a espécie, mas também idade, peso, condição clínica, doenças associadas e resposta individual de cada paciente.

Para os responsáveis, a orientação é simples: não compartilhar medicamentos, não adaptar doses por conta própria e procurar atendimento diante de sinais clínicos, suspeita de intoxicação ou dificuldade para administrar o tratamento.

Embora cães e gatos compartilhem o ambiente doméstico, eles apresentam diferenças biológicas profundas que exigem abordagens específicas na prevenção, no diagnóstico e no tratamento. Reconhecer essas particularidades é um dos pilares da medicina veterinária segura.

 

BOX  

Cães Gatos
  • Metabolizam diversos medicamentos com maior rapidez
  • A deficiência natural de enzimas hepáticas altera o metabolismo de vários fármacos
  • Fármacos mais perigosos: ibuprofeno, paracetamol, diclofenaco, ácido acetilsalicílico e orfenadrina/cafeína
  • Fármacos mais perigosos: ibuprofeno, paracetamol, diclofenaco e permetrina
  • Geralmente aceitam melhor medicamentos por via oral
  • Costumam apresentar maior resistência à administração oral
  • Biscoitos, molhos e outras apresentações mastigáveis costumam ter alta aceitação
  • Géis transdérmicos, pastas orais e formulações altamente palatáveis podem facilitar a adesão
  • Preferência por sabores de carne, bacon, churrasco, fígado e frango
  • Melhor aceitação de sabores como atum, sardinha, salmão e frango

 

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NUNCA FAÇA ISSO

Erros que ainda acontecem com frequência nos lares brasileiros:

  • Compartilhar medicamentos entre cães e gatos.
  • Utilizar medicamentos humanos sem orientação veterinária.
  • Dividir comprimidos “no olho” para ajustar doses.
  • Interromper tratamentos assim que os sinais clínicos desaparecem, não conforme a prescrição.
  • Aplicar antiparasitários destinados a cães em gatos.
  • Alterar doses ou horários por conta própria.

Na medicina veterinária, o medicamento certo depende da espécie, do paciente e do diagnóstico.

 

PERGUNTAS FREQUENTES

Cães e gatos podem tomar os mesmos medicamentos?

Não. Mesmo quando apresentam doenças semelhantes, diferenças metabólicas podem tornar um medicamento seguro para uma espécie e perigoso para outra.

Por que gatos são mais sensíveis a alguns medicamentos?

Porque apresentam particularidades na biotransformação e na eliminação de diversos medicamentos, incluindo menor capacidade para algumas reações de conjugação hepática, que influenciam a forma como determinados princípios ativos são processados.

Medicamentos manipulados podem facilitar o tratamento?

Sim, quando prescritos pelo médico-veterinário e manipulados com formas farmacêuticas e sabores atrativos podem facilitar a administração e melhorar a adesão. Além de serem manipulados exatamente para o peso do animal, o que oferece ainda maior segurança.

 

Sobre a DrogaVET

A DrogaVET está sempre em busca de soluções no segmento de manipulação veterinária, respeitando integralmente todos os princípios éticos que regem a produção de medicamentos e sua aplicabilidade em animais. Pioneira no segmento de farmácias de manipulação, a rede, que surgiu em 2004, já conta com mais de 100 unidades no Brasil e uma no Paraguai, unindo tecnologia, inovação e o conhecimento de uma equipe altamente especializada de farmacêuticos e veterinários. Mais informações no site www.drogavet.com.br.

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