Pesquisa da OCDE alerta para pouco contato com matemática na educação infantil

Estudo internacional indica que atividades com números recebem menos atenção que outras competências; experiências brasileiras mostram como brincadeiras podem estimular o raciocínio lógico

O contato das crianças com a matemática ainda recebe pouca atenção em parte das instituições de educação infantil. Uma pesquisa internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que, em muitos países, menos de dois terços dos educadores trabalham diariamente atividades de contagem e utilização de números com crianças pequenas.

O levantamento TALIS Starting Strong ouviu professores, profissionais e gestores de creches e pré-escolas de 17 países. A análise considerou práticas pedagógicas desenvolvidas com crianças de até seis anos.

Os resultados indicam que as habilidades socioemocionais são amplamente estimuladas nessa fase, enquanto noções matemáticas básicas, como contagem, comparação de quantidades, reconhecimento de padrões, medidas e sequências, aparecem com menor frequência no cotidiano escolar.

O Brasil não participou dessa etapa da pesquisa. Apesar disso, experiências realizadas por professores brasileiros mostram que a matemática pode ser introduzida desde cedo, de forma lúdica e integrada à realidade das crianças.

Matemática começa antes da disciplina

Segundo Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social, o aprendizado matemático não começa somente quando a criança encontra a disciplina na grade curricular.

“A matemática não começa quando a criança encontra a disciplina no currículo escolar, mas quando conta brinquedos, percebe quantidades, compara tamanhos e resolve pequenos problemas no cotidiano”, explica.

Atividades simples, como contar objetos, reconhecer formas geométricas, medir espaços e identificar o que é maior ou menor, contribuem para o desenvolvimento do raciocínio lógico, da linguagem e da capacidade de resolver problemas.

Na Espanha, por exemplo, cerca de três quartos dos educadores consultados afirmaram trabalhar diariamente atividades de contagem. Em outros países analisados, o percentual ficou próximo de apenas um terço dos profissionais.

Brincadeiras ajudam no aprendizado

No Brasil, professores têm transformado brincadeiras, histórias e espaços escolares em experiências matemáticas.

Em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, a professora Sabrina Machado Ribeiro desenvolveu um projeto no qual cada letra do alfabeto servia de ponto de partida para atividades pedagógicas. A letra “A” virou amarelinha, permitindo trabalhar contagem, localização espacial e formas geométricas.

A letra “B” levou as crianças ao Banco Imobiliário, utilizado para estimular a organização, a tomada de decisões e o raciocínio lógico.

No Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, a professora Jeane de Fátima Moreira Branco criou uma personagem para aproximar números, histórias, cultura afro-brasileira e elementos do cotidiano. Durante as atividades, as crianças associam quantidades a sementes, frutas e outros objetos.

Já em uma escola municipal de Erechim, no Rio Grande do Sul, estudantes utilizam fita métrica, régua e calculadora para medir os espaços da unidade de ensino e construir um mapa do local.

As experiências demonstram que o desenvolvimento matemático na primeira infância não precisa acontecer por meio de exercícios formais. Jogos, histórias, músicas e tarefas cotidianas podem ajudar as crianças a compreender números, quantidades, medidas e relações espaciais.

Especialistas destacam que o contato precoce e adequado com a matemática amplia as oportunidades de aprendizagem e pode produzir reflexos positivos durante toda a trajetória escolar.

Com informações do Itaú Social e da pesquisa TALIS Starting Strong, da OCDE.

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