O aumento do uso de medicamentos para tratamento da obesidade, como semaglutida e tirzepatida, trouxe uma preocupação adicional para pacientes que percebem aumento da queda de cabelo durante o processo de emagrecimento.
Embora a queda de cabelo esteja descrita entre as reações adversas de alguns desses medicamentos, a literatura científica indica que o fenômeno pode estar relacionado a diferentes fatores, principalmente à velocidade e à intensidade da perda de peso, à redução da ingestão calórica e proteica e às alterações nutricionais que podem acompanhar o processo.
No caso da tirzepatida, por exemplo, a bula do Zepbound informa que os episódios de queda de cabelo observados nos estudos clínicos estiveram associados à redução de peso. Nos grandes estudos clínicos de semaglutida e tirzepatida, os eventos adversos mais frequentes foram predominantemente gastrointestinais, mas a queda de cabelo aparece como um evento associado ao tratamento com medicamentos para controle do peso.
Eflúvio telógeno: uma queda temporária relacionada ao emagrecimento
Uma das possibilidades para o aumento da queda após uma perda significativa de peso é o eflúvio telógeno. Trata-se de uma alteração do ciclo capilar em que uma quantidade maior de folículos entra precocemente na fase de repouso, levando à queda dos fios algumas semanas ou meses depois do fator desencadeante.
A literatura médica reconhece a perda rápida de peso como um dos fatores capazes de desencadear o quadro. Estudos também mostram que a queda costuma aparecer com atraso em relação ao evento que a provocou, frequentemente cerca de dois a três meses depois.
Um estudo publicado em 2024 no Annals of Dermatology, que avaliou 140 pacientes diagnosticados com eflúvio telógeno associado à perda de peso, encontrou uma redução média de aproximadamente 15% do peso corporal e uma velocidade média de perda de 3,54 kg por mês entre os pacientes avaliados. O estudo é observacional e não estabelece uma velocidade universal de emagrecimento considerada segura para evitar o eflúvio, mas reforça a associação entre perda expressiva de peso e esse tipo de queda.
“O eflúvio telógeno é uma resposta do organismo a uma mudança importante. Durante uma perda de peso acentuada, principalmente quando há redução importante da ingestão de calorias e proteínas, o organismo pode alterar temporariamente o ciclo dos folículos. Por isso, não devemos olhar apenas para a balança. É importante acompanhar também o estado nutricional e a saúde dos cabelos”, explica o médico e cirurgião plástico Dr. Alan Wells, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Capilar (SBRCC).
Queda temporária não é o mesmo que alopecia androgenética
Um dos pontos mais importantes, segundo especialistas, é diferenciar o eflúvio telógeno da alopecia androgenética. O eflúvio telógeno costuma provocar uma queda difusa e temporária dos fios. Já a alopecia androgenética é uma condição crônica e progressiva relacionada à predisposição genética e à ação dos andrógenos sobre os folículos, provocando redução progressiva da espessura e da densidade dos cabelos. As duas condições podem, inclusive, coexistir.
Isso significa que uma pessoa que já apresenta alopecia androgenética pode perceber uma redução mais acentuada da densidade capilar depois de um período de emagrecimento e interpretar todo o quadro como consequência das canetas emagrecedoras.
“O emagrecimento pode desencadear um eflúvio telógeno, mas isso não significa que estamos diante de uma alopecia androgenética causada pelo medicamento. O que pode acontecer é o eflúvio tornar mais evidente uma alopecia androgenética que já estava em evolução. São situações diferentes e que precisam de abordagens diferentes”, afirma Wells.
Avaliação capilar antes e durante o emagrecimento
Por esse motivo, uma avaliação médica do couro cabeludo pode ser especialmente importante para pessoas que já apresentam histórico familiar de calvície, redução progressiva da densidade dos fios ou sinais de afinamento capilar antes de iniciar um tratamento para perda de peso.
A identificação precoce da alopecia androgenética permite discutir tratamentos específicos antes que ocorra uma perda maior de densidade.
Nesse contexto, o objetivo não é tratar preventivamente um eventual eflúvio telógeno com procedimentos, mas identificar uma alopecia permanente que possa necessitar de tratamento.
Tratamento da alopecia androgenética é diferente do tratamento do eflúvio
Quando o diagnóstico é de alopecia androgenética, existem tratamentos médicos com evidências científicas para ajudar a controlar a progressão da doença e estimular a manutenção ou o crescimento dos fios, de acordo com o sexo, a idade, o padrão de perda, as condições clínicas e as contraindicações de cada paciente.
Entre as opções estão medicamentos como o minoxidil e, em situações específicas, medicamentos que atuam sobre a via hormonal. A escolha deve ser individualizada e feita por um médico.
Além dos medicamentos, algumas terapias complementares vêm sendo estudadas para a alopecia androgenética.
O microagulhamento, por exemplo, apresentou resultados positivos como terapia adjuvante em estudos clínicos, especialmente quando associado ao minoxidil. Uma revisão sistemática que avaliou 22 estudos e mais de mil pacientes encontrou melhora de parâmetros capilares com o uso do microagulhamento em diferentes protocolos, incluindo pacientes com alopecia androgenética.
O laser de baixa intensidade também apresenta evidências de benefício para a alopecia androgenética. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, com 38 estudos e 3.098 pacientes, encontrou aumento significativo da densidade capilar em pacientes com alopecia androgenética tratados com laser ou LED de baixa intensidade em comparação com placebo. Os autores, entretanto, ressaltam a necessidade de mais estudos para estabelecer protocolos e avaliar melhor a eficácia.
O plasma rico em plaquetas (PRP) é outra terapia investigada para alopecia androgenética. Revisões sistemáticas e meta-análises apontam resultados promissores, mas também mostram diferenças importantes entre protocolos, métodos de preparação e aplicação, o que dificulta estabelecer um protocolo universal.
“Procedimentos como microagulhamento, laser e PRP não devem ser apresentados como tratamento para o eflúvio telógeno provocado pelo emagrecimento. Eles são estudados principalmente em doenças como a alopecia androgenética e podem ser considerados em pacientes selecionados, sempre depois de estabelecer o diagnóstico”, explica Wells.
Alimentação e proteínas entram no cuidado
Durante o emagrecimento, outro cuidado importante é evitar dietas excessivamente restritivas. A redução do consumo de alimentos pode levar também à diminuição da ingestão de proteínas e de micronutrientes importantes. Em pacientes com queda de cabelo, a investigação clínica pode incluir a avaliação de possíveis deficiências nutricionais, conforme a história e os sintomas apresentados.
Entre os nutrientes que podem ser investigados, dependendo do caso, estão ferro e ferritina, vitamina B12, vitamina D, zinco, folato e outros parâmetros relacionados ao estado nutricional.
Isso não significa, porém, que toda pessoa que utiliza uma caneta para emagrecer precise tomar vitaminas ou suplementos.
“Suplementação não deve ser feita de maneira automática. Se existe deficiência nutricional, ela precisa ser identificada e corrigida. Mas tomar vitaminas sem indicação não significa necessariamente melhorar o cabelo e, em alguns casos, o excesso de determinados nutrientes também pode ser prejudicial”, alerta o médico.
O objetivo não é interromper o tratamento para emagrecer
Para os especialistas, o surgimento de queda de cabelo não significa automaticamente que o paciente deva suspender o medicamento. A decisão sobre dose, continuidade ou mudança do tratamento deve ser tomada pelo médico que acompanha o paciente, considerando os benefícios do controle da obesidade e os possíveis efeitos adversos.
“O tratamento da obesidade trouxe avanços importantes e não devemos transformar a queda de cabelo em motivo para abandonar uma terapia que pode ser necessária para a saúde do paciente. O caminho é acompanhar de forma integrada: controlar a perda de peso, preservar a nutrição e investigar o couro cabeludo quando houver sinais de alteração. Se houver alopecia androgenética, ela deve ser tratada como uma doença específica”, afirma Alan Wells.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Capilar (SBRCC) reforça que o diagnóstico correto é fundamental para diferenciar uma queda transitória, como o eflúvio telógeno, de uma alopecia de evolução crônica. A entidade tem entre seus objetivos promover atualização científica e qualificação profissional na área de cirurgia capilar.
Transplante capilar não trata eflúvio telógeno
Outro ponto importante é que o transplante capilar não é tratamento para o eflúvio telógeno. Como o eflúvio é uma alteração temporária do ciclo dos fios, o tratamento deve priorizar a identificação e a correção do fator desencadeante, quando possível, além do acompanhamento da evolução do quadro.
O transplante pode ser considerado em situações específicas de perda capilar permanente, como determinados casos de alopecia androgenética, quando existe indicação médica e condições adequadas para o procedimento.
“O transplante capilar não deve ser utilizado para tratar uma queda temporária provocada por um processo como o eflúvio telógeno. Antes de pensar em cirurgia, é fundamental saber qual doença está causando a perda de cabelo. Em casos de alopecia androgenética, o transplante pode fazer parte do tratamento quando há indicação, mas ele não substitui o diagnóstico nem o acompanhamento médico”, conclui Wells.