Por que algumas pessoas escrevem, comem ou arremessam uma bola naturalmente com a mão esquerda, enquanto outras preferem a direita? Embora pareça uma característica simples do cotidiano, a preferência por uma das mãos é resultado de um processo muito mais complexo. A ciência já sabe que a genética tem participação importante nessa característica, mas não existe um único “gene do canhoto”.
Uma meta-análise publicada na revista científica Psychological Bulletin, que reuniu dados de diferentes populações, estimou em 10,6% a prevalência média de canhotos. A proporção pode variar de acordo com a população estudada e, principalmente, com a forma utilizada para avaliar a preferência manual.
A influência genética também foi investigada em um dos maiores estudos já realizados sobre o tema. Publicada na Nature Human Behaviour, a pesquisa analisou dados genéticos de mais de 1,7 milhão de pessoas e identificou 41 regiões do genoma associadas à canhotice, além de outras sete relacionadas à ambidestria. Os resultados reforçam que a preferência manual é uma característica poligênica, ou seja, influenciada pela ação conjunta de diferentes variantes genéticas.
Os pesquisadores também encontraram associações entre algumas dessas regiões genéticas e mecanismos relacionados ao desenvolvimento e funcionamento do sistema nervoso, ajudando a compreender a relação entre genética, cérebro e preferência manual.
“A lateralidade é uma característica complexa e não pode ser explicada por um único gene. A genética tem um papel importante, mas diferentes variantes podem contribuir para essa característica, em conjunto com fatores relacionados ao desenvolvimento e ao ambiente”, explica Ricardo Di Lazzaro, médico, doutor em genética e fundador da Genera, marca da Dasa.
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Ter pais canhotos aumenta a chance de o filho também ser?
A resposta é sim, mas não significa que uma criança de pais canhotos necessariamente será canhota. A preferência pela mão esquerda pode aparecer com maior frequência em algumas famílias justamente porque existe uma componente genética envolvida.
Como a característica é poligênica, porém, não há um padrão simples de herança. Em vez de um único gene determinar o resultado, diferentes variantes genéticas podem contribuir para aumentar ou diminuir a probabilidade de uma pessoa desenvolver preferência por uma das mãos.
O ambiente também pode influenciar
A genética não conta toda a história. Fatores ambientais, culturais e relacionados ao desenvolvimento também podem influenciar a forma como a preferência manual se manifesta.
Durante muito tempo, crianças canhotas foram incentivadas — e, em alguns casos, obrigadas a utilizar a mão direita para escrever ou realizar determinadas atividades. Esse tipo de pressão cultural pode inclusive interferir na identificação da lateralidade em estudos populacionais.
O próprio ambiente cotidiano também é predominantemente pensado para destros. Tesouras, carteiras escolares, instrumentos musicais e outros objetos podem exigir adaptações de quem utiliza a mão esquerda.
Pesquisas também investigam a influência de fatores presentes ainda durante a gestação e o desenvolvimento fetal. No entanto, esses elementos não devem ser interpretados isoladamente: a preferência manual resulta da combinação de múltiplos fatores, e nenhum deles, sozinho, determina se uma pessoa será canhota ou destra.
O que o DNA revela sobre ser canhoto?
Estudar a lateralidade ajuda a entender um aspecto importante da genética humana: características do nosso cotidiano podem ter uma arquitetura biológica muito mais complexa do que aparentam.
A identificação de dezenas de regiões genéticas associadas à canhotice mostra que o DNA pode contribuir para características relacionadas ao desenvolvimento e ao funcionamento do organismo sem que exista uma relação simples de causa e efeito.
“Quando falamos sobre genética, é importante fugir da ideia de que existe um único gene responsável por cada característica. Ser canhoto não é resultado de um único fator: diferentes variantes genéticas participam desse processo, em combinação com aspectos do desenvolvimento e do ambiente. É justamente essa interação que torna a lateralidade um exemplo tão interessante da complexidade da genética”, finaliza Di Lazzaro.
Referências:
https://www.nature.com/articles/s41562-020-00956-y
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7116623/
Texto base: https://www.genera.com.br/blog/destro-ou-canhoto-genetica/
