Muito antes da presença humana, plantas e insetos já estabeleciam um diálogo sofisticado baseado em sinais químicos, visuais e estruturais. Essa comunicação invisível, desenvolvida ao longo de centenas de milhões de anos, é essencial para processos como a polinização, o equilíbrio dos ecossistemas e a manutenção da biodiversidade no planeta.

De acordo com o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja, Décio Luiz Gazzoni, que também integra o Conselho Científico Agro Sustentável, a relação entre plantas e insetos não ocorre de forma aleatória. Trata-se de um sistema altamente organizado, no qual plantas produzem sinais específicos e os insetos interpretam essas mensagens, desencadeando comportamentos precisos.

Um dos exemplos mais conhecidos dessa interação é a polinização. As plantas utilizam cores, formatos, aromas e até padrões invisíveis ao olho humano para atrair polinizadores. Entre esses recursos estão as chamadas guias de néctar, marcas presentes nas flores que funcionam como pistas visuais e químicas, orientando os insetos até o néctar e os órgãos reprodutivos.

Os aromas florais também desempenham papel central nesse diálogo. Compostos orgânicos voláteis são liberados no ambiente e transportados pelo vento, permitindo que insetos localizem flores a longas distâncias. Esse mecanismo favorece relações específicas entre plantas e polinizadores e estimula a polinização cruzada, fundamental para a diversidade genética das espécies vegetais.

A comunicação, no entanto, não se limita à cooperação. Quando atacadas por insetos herbívoros, as plantas ativam estratégias de defesa altamente sofisticadas. Uma delas é a liberação de substâncias químicas voláteis que funcionam como um alerta, atraindo predadores naturais das pragas ou parasitoides que auxiliam no controle biológico. Em determinadas situações, esses sinais também são percebidos por plantas vizinhas, que passam a ativar seus próprios mecanismos de defesa antes mesmo de sofrerem ataques.

Ao longo da evolução, alguns insetos desenvolveram a capacidade de explorar esse sistema de comunicação. Há espécies que conseguem interceptar, suprimir ou até imitar os sinais químicos emitidos pelas plantas para obter vantagens. Um exemplo clássico ocorre em determinadas orquídeas, que produzem substâncias semelhantes a feromônios sexuais de insetos, induzindo-os a uma falsa cópula que resulta na polinização da planta.

A compreensão desse diálogo químico é considerada estratégica para a ciência e para a agricultura moderna. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária mantém, na Embrapa Soja, um Laboratório de Ecologia Química dedicado ao estudo dessas interações, com foco no desenvolvimento de sistemas agrícolas mais sustentáveis, eficientes e alinhados à preservação ambiental.