A cerca de 40 quilômetros de Brasília, o município de Cidade Ocidental vive neste fim de semana mais um capítulo de uma tradição que resiste ao tempo. Nos dias 10 e 11 de janeiro, o Quilombo Mesquita recebe a Festa do Marmelo, celebração que une cultura, agricultura familiar, fé e identidade local, inspirada na resistência de um fruto colhido apenas uma vez por ano.

Estrela do evento, o marmelo amadurece entre janeiro e fevereiro e dá origem ao tradicional doce preparado no tacho, receita passada de geração em geração. Esse saber ancestral transforma a colheita em ritual e faz da festa um ponto de encontro entre moradores e visitantes, preservando histórias, afetos e sabores do Cerrado.
No sábado (10), ocorre a tradicional Cavalgada do Marmelo, com saída às 11h, a partir da quadra de esportes atrás da Igreja do Rosário. A chegada está prevista para 14h30, no Quilombo Mesquita, onde os cavaleiros serão recebidos com o doce de marmelo ainda quente — símbolo de hospitalidade — seguido de almoço comunitário.
Já no domingo (11), a programação começa com a Santa Missa na Igreja Nossa Senhora d’Abadia, no próprio Mesquita, seguida do tradicional leilão. O encerramento acontece no almoço coletivo, momento em que a mesa se torna extensão da celebração e as histórias passam a circular entre todos.
Para a secretária interina do Entorno do DF, Paula Tredicci, celebrações como a Festa do Marmelo representam a força cultural da região. “O Entorno tem muito orgulho das suas tradições. Elas fortalecem o sentimento de pertencimento, valorizam a história das comunidades e mostram que desenvolvimento também passa por respeitar e preservar aquilo que nos forma como povo”, destaca.
Segundo o secretário municipal de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Cidade Ocidental, João Aragão, o evento cresce a cada ano sem perder sua essência. “A cada edição, a festa atrai mais visitantes curiosos em conhecer essa tradição tão autêntica. A prefeitura tem dado total apoio para manter viva essa história. É uma festa linda, única, e todos estão convidados”, afirma.
Mais do que programação oficial, a Festa do Marmelo é feita de histórias pessoais. Um exemplo é o produtor rural Sinval Pereira Braga, de 70 anos, dono de um pomar com 140 pés de marmelo. Ele mantém a tradição ao lado da família, reunindo gerações em torno da colheita. “Alguns me ajudam no cultivo do marmelo, filha e netas na preparação da polpa para fazer o doce. É tudo feito em família”, conta.
A relação com o fruto vem de longe. Sinval lembra que a produção começou com o pai, ainda no século passado, e nunca mais foi interrompida. “Mesmo depois que ele faleceu, em 1967, a gente continuou a produção. Bem ali ficava a casa, e tem um pé de marmelo que foi ele quem plantou quando era jovem. É uma árvore centenária, que dá marmelo até hoje”, diz, com orgulho.
Mais do que renda ou trabalho, o marmelo representa continuidade. “O marmelo, para mim, é muito gratificante. É algo que veio dos meus pais e que vai ficar para meus filhos, netos e bisnetos. Isso não tem preço”, resume o produtor.
