Em Horizontina, no Noroeste do Rio Grande do Sul, um grupo de mulheres se reúne todas as quartas-feiras à tarde para atividades de crochê, tricô e bordado. O encontro, que pode parecer apenas um momento de lazer, tem gerado impactos importantes na vida das participantes.

A iniciativa faz parte do programa Mãos e Fios, desenvolvido pelo MEA – Memorial da Evolução Agrícola, e criado com o objetivo de valorizar práticas tradicionais do artesanato feminino como ferramenta de acolhimento, aprendizado e fortalecimento comunitário.

A proposta surgiu a partir da iniciativa da mediadora cultural Claudete Engler, que identificou a importância de resgatar saberes tradicionais ligados à história das famílias rurais.

Segundo ela, o artesanato vai muito além da produção manual. “Percebi que a história da agricultura tradicional também passa pelas mãos das nossas avós, pelas peças que elas criavam em casa. O Mãos e Fios nasceu como um espaço de troca e aprendizado, onde o artesanato se torna uma ferramenta de desenvolvimento humano”, explica.

Artesanato como cuidado com a saúde mental

Em um período marcado por discussões sobre saúde mental e cuidado psicossocial, o programa ampliou suas atividades com oficinas, encontros semanais e ações itinerantes.

Mais do que ensinar técnicas artesanais, os encontros se tornaram espaços de convivência, escuta e fortalecimento emocional.

As participantes relatam que o momento dedicado ao artesanato funciona como uma pausa na rotina, contribuindo para reduzir o estresse, estimular a criatividade e fortalecer vínculos entre as mulheres.

Projeto Amigas do MEA fortalece solidariedade

Uma das principais frentes do programa é o Amigas do MEA, que promove encontros abertos para a produção voluntária de peças em lã destinadas a instituições sociais.

Somente no último ano, o grupo confeccionou e doou mais de 160 peças. Atualmente, cerca de 18 participantes fixas integram a iniciativa, transformando as tardes de artesanato em momentos de solidariedade e amizade.

Durante os encontros, cada participante pode retirar kits com novelos de lã e agulhas para produzir as peças em casa ou durante as reuniões. Em contrapartida, as artesãs se comprometem a confeccionar ao menos cinco peças por kit.

Oficinas levam capacitação e acolhimento a outras cidades

O impacto do programa também chegou a outros municípios do Rio Grande do Sul por meio do projeto Mãos e Fios Itinerante, que realiza oficinas em parceria com equipamentos da assistência social.

A cidade de Nova Candelária foi uma das localidades atendidas. Lá, mulheres agricultoras e beneficiárias de programas sociais participaram das atividades voltadas ao aprendizado do artesanato e ao fortalecimento emocional.

Segundo a secretária de Assistência Social do município, Gabriella Copetti Sartor, o projeto tem gerado resultados positivos.

“O programa cria um espaço de afeto, troca e aprendizado. Pode até se transformar em uma oportunidade de renda, mas, acima de tudo, representa acolhimento e empatia”, destaca.

Saberes tradicionais e cultura indígena também fazem parte do projeto

Entre as atividades promovidas pelo programa está uma oficina de artesanato indígena conduzida por Miguelina Romeu, cacica da comunidade Tekoá Pyaú.

Durante a atividade, as participantes aprendem sobre o uso das miçangas como forma de expressão cultural e artística, promovendo um contato direto com os saberes ancestrais dos povos originários.

A experiência também incentiva reflexões sobre identidade cultural, diversidade e preservação das tradições.

Artesanato também abre portas para geração de renda

Além do impacto social e emocional, o Mãos e Fios também atua na capacitação de mulheres para atuarem como artesãs e oficineiras em suas comunidades.

Tatiane Kolling, de 42 anos, é um exemplo dessa transformação. Após se mudar do interior para a cidade, ela encontrou no projeto uma oportunidade de recomeço.

“Nunca tinha dado aula de bordado. Quando recebi o convite do programa, percebi que poderia compartilhar o que sabia e ajudar outras mulheres também”, relata.

Expansão do projeto em 2026

Para 2026, o programa prevê a realização de 89 atividades, distribuídas em três frentes principais:

  • Amigas do MEA: encontros semanais abertos ao público para produção voluntária de peças em lã;

  • Mãos e Fios Itinerante: oficinas realizadas em parceria com municípios e equipamentos da assistência social, como CRAS, CREAS e CAPS;

  • Tecendo Encontros: atividades formativas voltadas à criatividade, resgate de memórias e geração de renda.

Todas as atividades promovidas pelo MEA são gratuitas e abertas ao público.

Interessados em participar ou levar o projeto para instituições e grupos comunitários podem entrar em contato por meio do e-mail: contato@mea.org.br.