O Congresso Nacional voltou oficialmente aos trabalhos no dia 2 de fevereiro, em Brasília, após o recesso parlamentar, mas longe de um ambiente de reconstrução institucional ou consenso. A reabertura do ano legislativo escancarou um Congresso pressionado, autocentrado e já completamente contaminado pelo clima eleitoral de 2026.
A sessão solene de abertura, marcada pela leitura protocolar da mensagem do Executivo, serviu mais como vitrine política do que como sinal de alinhamento entre os Poderes. Na prática, deputados e senadores retomam as atividades com uma agenda fragmentada, disputas internas acirradas e foco seletivo em pautas que interessam diretamente às corporações políticas e ao jogo eleitoral.
Na mensagem enviada ao Parlamento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu mudanças nas relações de trabalho, incluindo o debate sobre o fim da escala 6×1. O tema, embora popular no discurso, enfrenta resistência silenciosa no Congresso, sobretudo entre parlamentares alinhados a setores empresariais e à velha lógica de flexibilização trabalhista sem contrapartidas sociais.
Enquanto propostas estruturais patinam, o Congresso mostrou agilidade quando o assunto envolve a própria casa. Logo no início dos trabalhos, avançaram projetos relacionados a reajustes e gratificações para servidores da Câmara e do Senado — uma pauta que sempre encontra consenso rápido, mesmo em um cenário de restrições fiscais e cobranças por responsabilidade com o gasto público.
Nos bastidores, a prioridade real tem sido a ocupação de espaços estratégicos. A disputa pelas presidências das comissões permanentes revela o verdadeiro termômetro político do momento. Quem controla as comissões controla o ritmo das pautas, escolhe o que anda e o que morre engavetado — especialmente em um ano em que ninguém quer carregar o ônus de votações impopulares.
Com o calendário encurtado pela proximidade das eleições gerais, líderes partidários já admitem, reservadamente, que o Congresso deve funcionar em marcha reduzida ao longo do segundo semestre. A tendência é de um Parlamento mais preocupado em proteger mandatos, construir narrativas e negociar alianças do que em enfrentar reformas profundas.
A retomada dos trabalhos no dia 2 de fevereiro deixa claro que 2026 já começou dentro do Congresso. O plenário volta a funcionar, mas o foco está longe do interesse coletivo: o jogo é eleitoral, o discurso é calculado e as decisões seguem cada vez mais reféns do projeto de poder.
Por Cris Oliveira – Jornalista | Blog da Cris
Especialista em política, políticas públicas, empreendedorismo e cobertura institucion
