Duas brasileiras que dedicaram suas vidas à pesca artesanal e à defesa de comunidades tradicionais conquistaram reconhecimento internacional. A pernambucana Joana Rodrigues Mousinho, de 70 anos, e a liderança indígena baiana Luena Maria Ferreira dos Santos, conhecida como Luena Pataxó, de 44 anos, foram escolhidas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para integrar a lista das 100 Mulheres Heroínas dos Sistemas Agroalimentares e do Desenvolvimento Rural.
A cerimônia de homenagem aconteceu na quinta-feira (15 de outubro), em Roma, na Itália, durante o Fórum Mundial da Alimentação. O reconhecimento ganhou destaque no noticiário brasileiro neste domingo (18).
As duas pescadoras foram indicadas pelo Ministério das Mulheres e selecionadas em um processo internacional que recebeu 609 indicações de 131 países. A iniciativa reconhece mulheres que contribuem para a produção de alimentos, a preservação ambiental, a geração de renda e o fortalecimento das comunidades rurais.
Pernambucana fez história na pesca artesanal
Natural de Pernambuco, Joana Rodrigues Mousinho começou a trabalhar na pesca ainda na infância. Há mais de seis décadas, desenvolve suas atividades no Canal de Santa Cruz, em Itapissuma, no litoral norte pernambucano, onde captura peixes, camarões, mariscos e siris.
Sua trajetória é marcada pelo pioneirismo. Joana foi uma das primeiras mulheres brasileiras a conquistar o Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) e a primeira mulher a presidir uma colônia de pescadores no país.
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Também participou da fundação da Articulação Nacional das Pescadoras, movimento que atua na defesa dos direitos profissionais, no reconhecimento das trabalhadoras da pesca artesanal e na proteção dos territórios costeiros.
Em 2024, Joana já havia recebido o Prêmio Mulheres das Águas, concedido pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, na categoria Pesca Artesanal em Águas Marinhas.
A homenagem internacional representa mais um reconhecimento de sua atuação na organização das pescadoras e na valorização de uma atividade fundamental para milhares de famílias brasileiras.
Segundo Joana, a conquista também pertence à comunidade e incentiva outras mulheres a participar dos espaços de decisão.
Luena Pataxó representa a força das mulheres indígenas da Bahia
A segunda brasileira homenageada, Luena Pataxó, tem 44 anos e vive no distrito de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia.
Indígena da etnia Pataxó, ela preside a Associação dos Pescadores Indígenas Pataxó (Apip) e o Comitê de Relacionamento de Pescadores do extremo sul baiano, que reúne oito municípios e 13 associações.
Sua atuação está voltada à organização comunitária, à preservação da cultura indígena, à segurança dos trabalhadores no mar e à criação de oportunidades econômicas para famílias que dependem da pesca artesanal.
Luena também criou o Grupo de Trabalho Indígena Nacional, vinculado ao Plano Nacional da Pesca Artesanal, e conquistou reconhecimento no Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, com o primeiro lugar estadual e o terceiro nacional na categoria Produtora Rural.
Para a liderança indígena, o prêmio recebido na Itália representa não apenas sua trajetória individual, mas a luta coletiva do povo Pataxó e das mulheres que vivem da pesca.
Mulheres representam 41% da força de trabalho nos sistemas agroalimentares
Segundo a FAO, as mulheres representam aproximadamente 41% da força de trabalho mundial nos sistemas agroalimentares, desempenhando funções que vão da produção e processamento de alimentos até a comercialização e a preservação dos recursos naturais.
Apesar dessa participação, muitas ainda enfrentam condições precárias de trabalho, dificuldades de acesso a direitos e barreiras à autonomia econômica.
A premiação internacional integra as ações do Ano Internacional da Mulher Agricultora de 2026, iniciativa voltada à valorização da participação feminina na produção de alimentos e no desenvolvimento rural.
A cerimônia reuniu representantes de diferentes países e reconheceu trajetórias ligadas à agricultura, pesca, aquicultura, ciência, empreendedorismo e preservação ambiental.
Reconhecimento internacional valoriza comunidades brasileiras
A escolha de Joana Mousinho e Luena Pataxó também dá visibilidade às comunidades pesqueiras brasileiras, especialmente às mulheres que conciliam o trabalho no mar com a organização social e a defesa de seus territórios.
As duas integram o Fórum de Políticas Públicas de Autonomia Econômica e Cuidado com Mulheres da Pesca, Aquicultura Artesanal e Marisqueiras do Brasil.
O reconhecimento da FAO evidencia a contribuição dessas trabalhadoras para a segurança alimentar, a conservação ambiental e a manutenção de conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.
De Pernambuco à Bahia, as histórias das duas brasileiras mostram como a pesca artesanal ultrapassa a atividade econômica e se conecta à identidade cultural, à sobrevivência das comunidades e à participação das mulheres nas decisões sobre seus territórios.
