Instituto Ampara Animal alerta para o preconceito que faz alguns cães serem escolhidos e outros esquecidos

Instituto chama atenção para a realidade de milhares de animais que aguardam por uma família e para a forma seletiva como os humanos escolhem seus companheiros

O Brasil é um país que diz amar cachorros. Eles ocupam espaço nas famílias, nas redes sociais, na publicidade e até recebem homenagens em datas especiais. Mas, quando chega o momento de escolher um animal para dividir a vida, nem todos os cães recebem as mesmas oportunidades.

Enquanto alguns despertam imediatamente o interesse de possíveis adotantes, outros podem passar meses — e até anos — aguardando uma família. Cães sem raça definida, adultos, idosos ou aqueles que simplesmente não se encaixam em determinado padrão de aparência estão entre os animais que frequentemente permanecem invisíveis aos olhos de quem procura um novo companheiro.

O Instituto AMPARA Animal propõe uma reflexão: afinal, quando dizemos que amamos os cães, estamos falando de todos eles ou apenas daqueles que escolhemos enxergar?

A pergunta ganha ainda mais importância diante da realidade do abandono animal no Brasil. Dados divulgados pelo Governo do Estado de São Paulo, com base em levantamento citado pela Agência SP, apontam uma estimativa de cerca de 30 milhões de cães e gatos em situação de abandono no país. Desse total, aproximadamente 20 milhões seriam cães. O mesmo levantamento aponta ainda que milhares de animais aguardam uma nova família em abrigos de organizações de proteção animal ou em espaços cedidos pelo poder público.

O abandono, além de representar uma situação de sofrimento para os animais, é um dos fatores que alimentam a superlotação dos abrigos. Estudos e materiais técnicos voltados à medicina de abrigos destacam que, idealmente, esses espaços devem funcionar como locais de passagem, acolhendo animais e preparando-os para a reintegração à sociedade por meio da adoção. Na prática, porém, muitos enfrentam limitações de estrutura, recursos humanos e capacidade de acolhimento.

Para Juliana Camargo, presidente do Instituto Ampara Animal, essa realidade revela uma contradição que quem trabalha diariamente com proteção animal presencia de perto.

“Nós vivemos em um país que se declara apaixonado por cachorros, mas essa paixão não pode ser seletiva. O filhote pequeno, o cão que se encaixa em determinado padrão ou aquele que chama atenção imediatamente costuma despertar o interesse das pessoas. Enquanto isso, tantos outros continuam esperando. Um cão adulto, um vira-lata, um animal idoso ou aquele que não corresponde à imagem idealizada de um cachorro também tem a mesma capacidade de amar, criar vínculos e transformar a vida de uma família, afirma.

A realidade dos abrigos e espaços de adoção mostra que encontrar uma família não depende apenas da personalidade do animal. A primeira impressão, a aparência, a idade e as expectativas de quem procura adotar podem influenciar diretamente a decisão.

Pesquisas brasileiras na área de medicina de abrigos também reforçam a importância de preparar os animais para a adoção e acompanhar as famílias após a chegada do novo integrante. Um estudo divulgado pela CAPES acompanhou cães em situação de abrigo submetidos a maior interação com humanos, incluindo carinho, brincadeiras, passeios e treinamento básico. Segundo a pesquisa, os animais que participaram do programa e foram adotados não retornaram ao abrigo durante o período analisado.

Outro trabalho voltado à adoção responsável e ao acompanhamento pós-adoção acompanhou cães de abrigo e destacou a importância de preparar tanto os animais quanto as famílias para a nova relação. Os pesquisadores concluíram que o processo de adoção precisa ir além da entrega do animal, contribuindo para sua ressocialização e permanência duradoura no novo lar.

É justamente por isso que o Instituto Ampara Animal defende que a escolha de um companheiro não seja baseada apenas na aparência ou na ideia pré-concebida de como um cachorro deveria ser. A adoção responsável passa, antes de tudo, pela compatibilidade entre a realidade da família e as necessidades do animal.

Na CasAdote, espaço de adoção do Instituto AMPARA Animal e da ONG Encontrei um Amigo, cães e gatos com diferentes histórias aguardam a oportunidade de encontrar um lar. Cada um deles traz uma personalidade própria, experiências diferentes e necessidades específicas. Para o Instituto, a adoção não deve ser uma escolha baseada em modismos ou padrões, mas o início de um compromisso que pode durar toda a vida do animal.

O desafio também está em mudar a maneira como a sociedade enxerga os cães que vivem fora do imaginário do “animal perfeito”. O vira-lata, o cão adulto e aquele que carrega marcas de uma história anterior não são animais de segunda escolha.

Talvez celebrar os cachorros seja também olhar para aqueles que não aparecem nas campanhas publicitárias, não acumulam seguidores nas redes sociais e não correspondem a um padrão de beleza ou de raça.

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