A quarta temporada de Bridgerton aposta em uma narrativa com atmosfera de conto de fadas para tratar de um tema cada vez mais presente no debate contemporâneo: os relacionamentos entre pessoas de classes sociais distintas. Inspirada livremente no clássico Cinderela, a trama acompanha Benedict Bridgerton, o irmão mais avesso às convenções da alta sociedade, que se apaixona por Sophie Baek, uma jovem criada que esconde sua verdadeira identidade após um encontro marcante em um baile de máscaras.
Ao evidenciar o contraste entre “o andar de cima e o andar de baixo”, a série amplia a discussão sobre status social, acesso a oportunidades e mobilidade econômica, elementos centrais tanto na narrativa de época quanto nas dinâmicas afetivas atuais.
Quando o romance de época dialoga com o presente
Embora ambientada no século XIX, Bridgerton estabelece pontes claras com o mundo contemporâneo. A relação entre Benedict e Sophie reflete modelos de conexão que, hoje, também se manifestam em formatos modernos de relacionamento, como a hipergamia — mais conhecida como relacionamento sugar. Assim como na ficção, esses vínculos costumam unir pessoas de realidades financeiras distintas, baseadas em acordos claros, expectativas alinhadas e trocas que vão além do aspecto material.
Para Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo e porta-voz do MeuPatrocínio, afinidade não se resume à atração romântica.
“Hoje, muitas mulheres valorizam estar com homens bem-sucedidos, que ofereçam segurança, maturidade e um estilo de vida compatível com seus objetivos. Afinidade também envolve valores, planos e visão de futuro. Isso é compatibilidade”, destaca.
Uma Cinderela contemporânea
Na releitura proposta pela série, Sophie Baek está longe do arquétipo da donzela passiva. A personagem é apresentada como uma mulher forte, consciente de sua posição e determinada a preservar sua autonomia, mesmo diante das limitações impostas pela estrutura social da época. Esse perfil dialoga diretamente com o comportamento de mulheres que, hoje, buscam relações onde cuidado, estabilidade emocional e independência caminham juntos.
Benedict, por sua vez, representa o homem que rejeita o casamento por convenção e encontra em Sophie não apenas encanto, mas parceria, admiração e reconhecimento mútuo. A relação se constrói menos pela hierarquia social e mais pela conexão genuína — um ponto que aproxima o romance da lógica de escolhas conscientes defendida por muitos relacionamentos modernos.
Amor, escolha e consciência social
A nova temporada reforça que relações entre pessoas de classes sociais diferentes sempre existiram, mas ganharam novos formatos ao longo do tempo. Ao trazer essa discussão para o centro da narrativa, Bridgerton mostra que o amor pode ser também um espaço de negociação, consciência e redefinição de destinos.
Mesmo sob o verniz do romance de época, a série sugere que afeto, suporte e clareza de intenções são capazes de atravessar barreiras sociais — ontem e hoje. Ao atualizar o mito da Cinderela, Bridgerton transforma o conto de fadas em um espelho das complexas dinâmicas afetivas da sociedade contemporânea.
Por Cris Oliveira – Jornalista | Blog da Cris
Especialista em política, políticas públicas, empreendedorismo e cobertura institucional.
