Pensou grande e levou milhões: Arruda volta ao Mané Garrincha, obra que resultou em bloqueio milionário de seus bens

O ex-governador José Roberto Arruda voltou a circular pelo Estádio Nacional Mané Garrincha como quem revisita um legado. Em vídeo recente, Arruda aparece observando a arena e comentando que teria “pensado” e “idealizado” o projeto. O que fica fora do enquadramento é o outro lado dessa história: o Mané Garrincha se tornou um dos maiores símbolos de desperdício de dinheiro público do país e levou ao bloqueio de bens do próprio ex-governador pela Justiça Federal.

Reconstruído para a Copa do Mundo, o estádio teve o orçamento inicial inflado por sucessivos aditivos contratuais, falhas graves de planejamento e decisões políticas que ignoraram a realidade esportiva e financeira do Distrito Federal. O custo final ultrapassou R$ 1,4 bilhão, colocando a arena entre as mais caras do mundo — em uma cidade sem tradição de grandes públicos regulares no futebol.

Quando a conta chegou, a Justiça reagiu

As irregularidades deram origem à Operação Panatenaico, que investigou fraudes, direcionamento de contratos, superfaturamento e pagamento de vantagens indevidas envolvendo empreiteiras e agentes públicos. Como consequência direta, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 26 milhões em bens de Arruda, além de outros ex-integrantes do alto escalão do GDF à época.

A medida teve como objetivo garantir o ressarcimento dos prejuízos causados aos cofres públicos. Mesmo assim, o valor representava apenas uma pequena parcela do rombo deixado pela obra.

Quanto isso representaria hoje

Se o bloqueio judicial determinado em 2017 fosse atualizado para os valores atuais, considerando apenas a correção inflacionária oficial (IPCA) acumulada no período, o montante chegaria hoje a algo entre R$ 41 milhões e R$ 43 milhões.

No mesmo processo, o Ministério Público Federal apontou que Arruda teria recebido cerca de R$ 3,8 milhões em propina, valor que, atualizado, corresponderia hoje a aproximadamente R$ 6 milhões.

Na prática, isso significa que, se a decisão fosse executada hoje, Arruda teria bens congelados na casa dos R$ 47 milhões a R$ 49 milhões ainda assim insuficientes para cobrir o prejuízo total imposto ao Distrito Federal.

Um estádio bonito, uma história cara

Atualmente operando sob regime de concessão, o Mané Garrincha recebe grandes shows e eventos pontuais. Ainda assim, permanece como símbolo de uma obra pensada para impressionar, não para servir à cidade, marcada por custos excessivos e baixa sustentabilidade financeira ao longo dos anos.

A visita de Arruda ao estádio, sem qualquer menção às investigações, condenações ou ao bloqueio de seus bens, foi interpretada por muitos como uma tentativa de reescrever a história — minimizando responsabilidades e ignorando o impacto duradouro das decisões tomadas.

Pensou grande. O DF pagou caro.

O Mané Garrincha segue de pé, moderno e imponente. Mas carrega uma memória que Brasília não esquece. Pensou grande, levou milhões e deixou a conta para a população. A arena virou palco. A dívida virou herança. E o debate sobre responsabilidade pública segue mais atua que nunca.

 

Por Cris Oliveira – Jornalista | Blog da Cris
Especialista em política, políticas públicas, empreendedorismo e cobertura institucional.

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