Tony Elumelu: “Precisamos começar a formar para a empregabilidade”

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Por NUNO ANDRADE FERREIRA

Empresário de referência no continente africano, o nigeriano Tony Elumelu destaca-se pelo apoio dado ao empreendedorismo jovem, através da fundação com o seu nome. Aos jovens, pede foco e resiliência. Aos governos, que garantam condições para que boas ideias se possam transformar em bons negócios. Sobre educação, alerta para a necessidade de se formarem quadros que respondam às necessidades do mercado de trabalho.

Que condições são necessárias para transformar uma boa ideia num bom negócio? 

A diferença está na capacidade de traduzir a ideia em acção, em realidade. Transformar ideias ou sonhos em resultados que podem ser vistos e medidos, para que o empreendedor possa saber se foi bem-sucedido. São necessários alguns factores. É preciso ser-se disciplinado, focado e resiliente. Na jornada de tentar traduzir ideias em resultados, muitas coisas acontecem. E se não se é disciplinado, focado e resiliente, não se chegará ao destino. Claro, há coisas que estão fora de nosso controlo, enquanto empresários. É o caso do ambiente operacional. Tive o privilégio de ser recebido pelo vosso Primeiro-Ministro e fiquei bastante impressionado. Ele falou como se fosse eu, como uma pessoa do sector privado, falou como um empresário sobre a criação de um ambiente propício que levará as empresas a terem sucesso. Essas são coisas que estão fora do domínio e controlo dos empresários, mas que também são importantes para moldar e definir se uma ideia se torna bem-sucedida ou não. O regime tributário, as infra-estruturas, o poder – quem está no poder? – o acesso aos mercados. Estas coisas estão para lá dos poderes imaginativos de um aspirante a empresário. Então, eu diria, em resumo, que para um negócio ter ou não ter sucesso é necessária uma interacção do governo, a fazer o que deve ser feito para criar o ambiente certo, e do empresário, sendo enérgico, focado e resiliente. Depois, claro, o apoio de pessoas como nós, para acesso ao capital, à formação, ao mentoring. Trabalhamos juntos.

E de que forma é que os governos devem agir para facilitar o ambiente de negócios? 

Primeiro, é uma grande responsabilidade do governo criar o ambiente operacional certo. Mas não podemos continuar a responsabilizar apenas o governo. O sector privado também deve desempenhar algum papel. Os governos devem tentar tornar o seu ambiente de negócios hospitaleiro e atractivo para o investimento. Quando o governo torna o país atractivo, quando esse país se abre, os investidores poderão investir. Quando os investidores chegam, eles investem em energia, telecomunicações, infra-estruturas rodoviárias, portuárias, aeroportuárias, ferroviárias. Tudo o que o governo precisa de fazer é criar as condições certas que atraiam os investidores, criar o ambiente propício para atrair investimentos para o país. Quando esse investimento acontece, naquilo a que chamamos de africapitalismo, quando o sector privado investe a longo prazo, os investidores lucram, mas ao mesmo tempo ajudam a fornecer os serviços e os equipamentos de que as sociedades precisam. Portanto, cabe aos governos continuar a trabalhar, com leis que garantam o direito à propriedade, criando um ambiente macroeconómico correcto, que assegure previsibilidade. Quando conversei com o vosso Primeiro-Ministro, senti que ele sabe para onde está a ir.

Os governos, incluindo o de Cabo Verde, gostam de dizer aos jovens para serem empreendedores. Na maioria das vezes, isto soa-me a cliché. 

A primeira regra é deixar que os governos digam aos jovens para serem empreendedores. Depois, esperar que o governo esteja verdadeira e apaixonadamente comprometido com o empreendedorismo. A terceira regra é deixar que o governo saiba que é fácil conversar, mas o mais importante é agir, tomar acções e medidas positivas. Já vi governos que não falam sobre o tema, que não dizem nada sobre empreendedores. Então, quando um país tem um governo, uma liderança, que fala sobre o assunto, é um ponto de partida. Agora, falar é apenas 1%, até menos de 1%. Os outros 99% são talk to action. Se se falar e não forem produzidos empreenderes, as pessoas vão saber que algo está errado e que se trata apenas de um artifício político. Mas eu creio que os presidentes africanos e do mundo, em geral, aos poucos, estão a começar a perceber que, com a população jovem que temos, devemos fazer alguma. Caso contrário, tornar-se-á catastrófico. Creio que nos estamos a afastar de um cliché, para o real. A diferença entre um e outro é a capacidade para fazer acontecer.

De que forma o continente africano poderá tirar partido da chamada ‘quarta revolução industrial’, actualmente em curso? 

Os jovens africanos são extremamente criativos, são inovadores, são enérgicos, são brilhantes. Estes jovens podem ajudar-nos a descolar, mas precisamos de criar as condições certas, precisamos de criar os nossos próprios Silicon Valley. Precisamos de garantir acesso à electricidade, precisamos de garantir a existência de condições que permitam a viabilização das Pequenas e Médias Empresas, que permitam que estes jovens implementem as suas ideias. Há cada vez mais governos a faze-lo. Temos pessoas com cérebro, entusiamo, capacidade e energia para fazer isto acontecer? Temos. É por isso que a Fundação Tony Elumelu, e outros como nós, faz o que faz. Tentamos garantir oportunidades para jovens africanos, percebendo que o futuro de África está nas suas mãos e que se os jovens tiverem sucesso, todos nós, como continente teremos sucesso. Se eles falharem, nós falharemos.

De que forma é que a sua fundação pode contribuir para esse objectivo? 

Em 2015, destinámos 100 milhões de dólares ao objectivo de ajudar pessoas de 54 países africanos, não apenas na Nigéria, a ter acesso a capital, a ter acesso a um programa de formação de 12 semanas, acesso a mentores e a oportunidades de networking. Há pouco tempo, lançámos o TEF Connect, que é um mercado digital para todos esses empreendedores africanos. É isso que estamos a fazer. Todos os anos, apoiamos mil jovens africanos, homens e mulheres, de todos os 54 países, independentemente do sector, e dizemos-lhes que tudo aquilo de que precisamos é de ideias. As ideias podem transformar África. Tem sido bastante interessante. Mas percebemos que precisamos de muito mais e estabelecemos parcerias. Recentemente, tivemos o envolvimento do PNUD [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento], do Banco Africano de Desenvolvimento, da Agência Japonesa de Desenvolvimento, entre outros. Estamos a trabalhar para aumentar a capacidade, aumentar a escala. Assim, em 2018 apoiámos mais de 3.500 empreendedores, sendo 1.000 pela Fundação e 2.500 através de outros parceiros. É disto que África precisa, é disto que estes jovens precisam e é isto que nos ajuda a sermos relevantes na quarta revolução industrial.

Em Cabo Verde, à semelhança de outros países, houve um forte investimento no ensino superior e agora temos um contingente de jovens licenciados e desempregados. O que é que se está a fazer de errado? 

Primeiro, devemos dizer que a educação é boa, é uma condição necessária. Estamos agora a perceber que a formação técnica e profissional é tão importante quanto a educação universitária, se não mais importante. Precisamos de preparar pessoas para o emprego. Países como a Alemanha entendem isso muito bem e fazem isso muito bem. Com a população que temos, precisamos de começar a formar para a empregabilidade. Esse é o elo que faltava. A educação é fundamental para sermos relevantes na revolução industrial da qual estamos a falar. Precisamos de garantir que os nossos quadros são formandos e treinados e é bom que sejam qualificados e instruídos de acordo com aquilo de que o mundo precisa. Precisamos, por exemplo, de ter pessoas que aprendam sobre programação, codificação.

Deixe-me ter a sua opinião sobre um tema actual: de que que forma África pode atrair investimento estrangeiro sem arriscar novas formas de dependência? 

Eu defendo exactamente isso. O objectivo deve ser da auto-suficiência. Vivemos num mundo interdependente. Não é crime quem tem apoiar quem não tem. Mas o apoio não deve gerar preguiça, não deve gerar perda de dignidade, não deve tornar as pessoas perpetuamente dependentes. Eu preciso de fazer do outro um pescador e não alguém que continuará a comer o peixe que eu lhe do

O ‘pai’ do africapitalismo; Economista e empreen­dedor, Tony Elumelu nasceu na Nigéria, em 1963 (56 anos). Com investimentos em diferentes áreas, destacam-se as participações no sector bancário, tanto do Standard Trust Bank, como no United Bank for Africa – que transformou uma instituição financeira pan-africana, com mais de sete milhões de clientes, em 19 países. Em 2010, criou uma fundação com o seu nome, focada no apoio ao empreendedorismo jovem no continente africano, a partir de um fundo de 100 milhões de dólares. É o ‘pai’ do conceito africapitalismo, um princípio económico que coloca o sector privado no centro da transformação do continente, através de investimentos de longo prazo, capazes de criar riqueza e bem-estar social