Ao colocar no mercado os primeiros vinhos com sua assinatura, em 2001, a mendoncina Susana Balbo sabia que vendê-los para seus conterrâneos seria quase impossível. A Argentina passava por aquela que ainda hoje é considerada a maior crise econômica de sua história recente. A taxa de desemprego superava os 15%, a dívida externa afugentava os investidores estrangeiros e, antes que o ano acabasse, uma onda de manifestações populares — os “panelaços” — culminaria com a renúncia do impopular presidente Fernando de la Rúa. O governo havia congelado os depósitos bancários e havia limites semanais para a retirada de fundos. Só havia um caminho para viabilizar a recém-criada Dominios del Plata, hoje Susana Balbo Wines, primeira vinícola argentina comandada por uma mulher: era preciso vender para fora do país.

“Comecei exportando 100% da produção”, disse Susana à DINHEIRO, na manhã da terça-feira 27, durante sua mais recente visita a São Paulo. “Um senhor já falecido, que escrevia sobre vinhos, importou cem caixas para o mercado brasileiro”. O rótulo em questão era o Brioso, ainda hoje produzido a partir de uvas colhidas nos vinhedos de altitude elevada na região de Agrelo, em Mendoza. Hoje, cada garrafa custa cerca de R$ 230. De lá para cá, a vinícola criada por Susana Baldo jamais parou de crescer — e o Brasil se firmou como o terceiro maior mercado para os vinhos das quatro linhas que integram a empresa (leia mais ao final da reportagem), atrás dos Estados Unidos e do Reino Unido, seu primeiro cliente.

“Sou particularmente grata aos brasileiros, que têm nos proporcionado um crescimento constante, embora não explosivo”, afirma a mulher que é sinônimo de vinho em seu país. “No último ano, recebemos em nossa vinícola 18 mil visitantes, e 60% deles eram do Brasil. Este ano vamos chegar a um recorde de 25 mil enoturistas em nosso restaurante em Agrelo — e a proporção de brasileiros se manterá em 60%”. Hoje, as exportações representam 96% do negócio de Susana, que tem se expandido para países promissores como a China. Há 11 anos a marca é representada no Brasil pela Cantu. “É uma pareceria comercial que nos ajuda a transmitir segurança ao consumidor”, diz Susana.

INFLUÊNCIA GLOBAL Pioneira em várias atividades (ela foi a primeira mulher a se formar em enologia em seu país, a primeira a montar sua própria vinícola e a presidir a Wines of Argentina), Susana ficou mundialmente conhecida como a principal força feminina do mundo dos vinhos na América Latina. Prova disso é ter sido nomeada duas vezes entre as 10 Mulheres Mais Influentes do Mundo do Vinho pela revista americana Drinks Business. Para ela, o reconhecimento é importante, mas manter-se atualizada é ainda mais.

“O mercado tem mudado. Os consumidores estão mais exigentes, preferem gastar mais em produtos melhores a comprar grandes volumes de menor qualidade. O mundo da gastronomia vem se sofisticando e os vinhos precisam acompanhar essa evolução do gosto”, diz Susana, citando restaurantes em que chef e sommelier trabalham juntos para oferecer já na carta as melhores harmonizações de pratos e bebidas. “É fascinante tentar compreender o que vai pela cabeça do consumidor, porque os gostos vão mudando, há modismos que vêm e vão, surgem novos estilos”, afirma. “Precisamos estar sempre atentos às tendências de mercado e principalmente ao quanto é possível evoluir como produtores, desde o cuidado com os vinhedos, a escolha do momento exato para a colheita, até o processo de vinificação”.

Por experiência própria, ela sabe que a Malbec, principal expressão da identidade argentina no mundo do vinho, assemelha-se à Syrah quando plantada em altitudes superiores. “Ela se torna mais elegante, com menos açúcares e mais aromas de frutas”, diz Susana, que no início de sua carreira como enóloga teve um papel de destaque na evolução dos vinhos elaborados com variedades brancas, caso da Torrontés. Hoje, 30% do que sua vinícola produz são brancos e rosados (a média argentina é de 7%).

Família unida: com os filhos Ana e José, que trabalham juntos na empresa familar. Ambos seguiram os passos da mãe: ela é administradora e ele enólogo (Crédito:Divulgação)

À frente de dois vinhedos próprios (Finca Dominio, em Agrelo, e Finca Dominio Guatallary, no Valle de Uco), e quatro linhas de produção (Crios, Nosotros, Susana Balbo Signature e BenMarco, este em parceria com Edgardo Del Pópolo), Susana tem como visão de negócio se posicionar como um dos “clássicos” produtores do mundo. “Nossa missão é elaborar vinhos com alta qualidade, direcionados ao público que busca excelência”, afirma a empresária que se orgulha de ter colocado os dois filhos, Ana e José, no centro do negócio. Seguindo os passos da mãe, José se formou em enologia pela Universidade da Califórnia, em Davis. Ele se divide entre os vinhos da família e seus próprios, que levam a marca Vaglio Wines. Ana, graduada pela Universidade San Andrés, em Buenos Aires, é quem hoje responde pela administração da empresa criada pela mãe em 1999.

Produzir brancos, rosados e tintos cada vez melhores e mais pontuados, ao mesmo tempo em que contribui para a evolução da vitivinicultura argentina, porém, se tornou apenas parte da missão de vida dessa genuína força da natureza. Em 2015, Susana foi eleita deputada nacional por Mendoza. “Renunciei ao mandato há um ano por entender que não estava contribuindo para fazer leis que fundassem uma Argentina nova, uma Argentina mais aberta o mundo e que pudesse gerar desenvolvimento, trabalho, e assim tirar as pessoas da miséria”, diz ela, citando que o presidente Mauricio Macri recebeu o país com 32% da população abaixo da linha da pobreza (leia mais sobre política na entrevista à esquerda).

A renúncia ao cargo legislativo, contudo, não encerrou a militância política de Susana, que desde 2017, representa a Argentina na Women 20 (W20, o braço feminino do G20), a cúpula que reivindica a representatividade feminina na comunidade internacional. “Estamos estabelecendo uma plataforma informativa para medir o impacto das políticas públicas sobre a redução da desigualdade entre gêneros, seja do ponto de vista salarial ou inclusão digital”, diz, lembrando que a mulher gasta muitas horas em atividades domésticas que não são remuneradas — e nem mesmo se considera o impacto desse trabalho no Produto Interno Bruto de cada país. “Esse não é um problema apenas da Argentina. Ele ocorre na Índia, na Arábia Saudita, no Brasil, por todo lado. Meu compromisso é trabalhar para reduzir as desigualdades entre gêneros. Isso não está ocorrendo na velocidade desejada”. Como se não bastasse, Susana tornou-se a primeira Embaixadora da Boa Vontade do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA). E tudo isso sem abrir mão do compromisso com seus vinhos, seus colaboradores e seus clientes.

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