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Tenhamos em mente que o Oscar foi criado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, nos Estados Unidos, para premiar não o mundo do cinema, mas Hollywood, o próprio cinema de lá. Não à toa, tantos filmes que falam sobre a própria casa ganham muita atenção dessa premiação. Porém, vimos história, e em 2020, a Academia deu o Oscar de Melhor Filme ao sul-coreano “Parasita”.

Apostar em “1917” (que apesar de britânico a Academia finge que é deles) era o óbvio e o simples. Apostar em “Parasita” era o necessário. O filme escancara as diferenças sociais e os males que isso provoca, deixando de ser uma produção de um país e passando a ser universal. “Parasita” está em todos os lugares, inclusive aqui, com o filme “Que Horas Ela Volta?”.

Um rompedor por natureza ao ganhar vários prêmios aos quais foi indicado, “Parasita” rompeu uma hegemonia entrando na casa alheia e sentando no melhor lugar. Se em 2019 o mexicano “Roma” já deveria ter ganho, bem como tantos outros “estrangeiros” que por ali passaram, foi o diretor Bong Joon-ho quem quebrou a banca.

A Academia parecia encurralada. Nos últimos anos, vários mexicanos ganharam o Oscar de direção: Guillermo del Toro (“A Forma da Água”), Alfonso Cuarón (“Roma” e “Gravidade”) e Alejandro Iñárritu (“Birdman” e “O Regresso”); além de Taiwan com Ang Lee (“A Vida de Pi” e “Brokeback Mountain”) e finalmente a França com Michel Hazanavicius (“O Artista”). Mas nada de melhor filme, isso não. Até chegar o simpático Bong Joon-ho, diretor de “Parasita”, e se mostrar merecedor logo quando subiu para buscar o primeiro prêmio, o de roteiro original.

O sul-coreano subiu as escadarias e recebeu a estatueta dourada do Oscar. Ele pegou o objeto, olhou, revirou, olhou de novo. Parecia uma criança admirando humildemente um brinquedo desejado por anos. Depois subiu para buscar o prêmio de Melhor Filme Internacional, que era barbada, e ao final disse que agora estava livre para beber “uns bons drinks” – ele achava que seria seu último Oscar daquela noite. Não foi. Subiu novamente, agora por Melhor Direção, e enalteceu a cada um dos diretores concorrentes, mas especialmente Martin Scorsese (“O Irlandês”) a quem praticamente dedicou sua carreira. “Quando eu era jovem e estudava cinema, tinha uma frase que dizia: ‘se você for bem fundo no coração vai conquistar o que quer’. Essa frase é do Martin Scorsese”, disse Bong Joon- ho, fazendo a platéia aplaudir de pé.

O tom humilde do diretor de cabelo desalinhado e jeito enérgico trouxe novamente mais um clímax para a noite. De novo enganado, disse que agora sim poderia beber para comemorar. Ainda não era o momento, pois ele voltou ao palco, agora para o grande prêmio, o de Melhor Filme. Nessa última subida não falou, falaram sobre ele e por ele, porém, o mais importante é ver que finalmente a Academia também já havia falado e, em um raro rompante de humildade, disse: toma, estrangeiros, esse é de vocês. “Parasita”, que
aborda os desequilíbrios sociais em seu texto, criou a melhor peça de metalinguagem do Oscar. O destoante ganhou a noite.

Notinhas

Na categoria Melhor Ator, Joaquin Phoenix fez discurso forte e orientou que todos ali eram iguais e deveriam se ver dessa maneira. Terminou o discurso citando uma música feita pelo seu irmão River Phoenix, ator de “Conta Comigo” ,que morreu aos 23 anos: “corra em direção ao amor que a paz seguirá”, dizia a letra.

Na categoria Melhor Trilha Sonora, o discurso de Hildur Guðnadóttir, ganhadora por “Coringa”, foi forte, dedicando o prêmio para as meninas, as mulheres e as mães que escutam a música dentro de si mesmas. Ela pediu que “Por favor, nos faça ouvir suas vozes”.

“1917” não levou Melhor Filme e nem Direção, mas arrastou três prêmios técnicos: Fotografia, Mixagem de Som e Efeitos Visuais. O primor do filme foi agraciado com o que ele tem de melhor. Pena que não foi indicado para Montagem, não só merecia a menção como também ganhar a categoria.

Quentin Tarantino, que geralmente ganha roteiro, saiu de mãos vazias. Nem Direção, nem Roteiro Original. “Era Uma Vez em… Hollywood” ganhou apenas Ator Coadjuvante (Brad Pitt) e Direção de Arte.

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