22 C
Distrito Federal
20/09/2020 - 03:21 AM

As Quentes da política do DF

MP 971/20 em pauta Está em pauta na Câmara dos Deputados, nesta quinta-feira (17), a medida provisória 971/20 que trata do aumento salarial  da força...
More

    Política e misoginia: por que é a hora de as mulheres levarem uma cadeira portátil à mesa

    As mulheres na política latino-americana parecem ter escutado o conselho de Shirley Chisholm: “Se eles não lhe oferecerem um lugar à mesa, carregue uma cadeira portátil”

    A política é ainda um território masculino. A maioria dos parlamentares são homens, e os modos de fazer política inspiram-se em valores masculinos, como força ou agressividade. A eleição de Jair Bolsonaro é o caso mais recente na América Latina: um personagem que faz flexão como quem diz bom-dia, sonha em vestir farda novamente e se apresenta como herói nacional. A política é mais do que um espaço masculino, é misógina. Expressões de rejeição às mulheres estão por toda parte – Bolsonaro disse à deputada Maria do Rosário que “ela não merecia ser estuprada”; Trump à Hillary “que como ela não conseguiu ‘satisfazer’ o marido, não poderia ‘cumprir’ as exigências de uma presidência do país”; ou Laura Chinchilla e Dilma Rousseff, que foram descritas como “marionetes” de outros homens de poder.

    Uma das mais recentes vítimas da misoginia na política foi a recém-eleita deputada nos EUA Alexandria Ocasio-Cortez. A mulher é um fenômeno de popularidade e, por isso, um enigma à política de homens brancos que domina o congresso americano: Ocasio-Cortez é jovem, latina, uma liderança que surgiu das ruas de Nova Iorque. Quando ela assumiu em Washington, imagens circularam pelas redes sociais — uma delas falsa sobre sua intimidade e outra em que dançava com colegas de escola. A intenção era humilhá-la. Ela mesma interpretou o ocorrido com um contraponto de gênero na política. Paul Ryan é um político americano, também eleito aos 28 anos como ela — Ryan foi descrito como “gênio”, Ocasio-Cortez como uma “fraude”.

    Esse jogo entre genialidade e fraude, força e fragilidade, é um dos pêndulos que perseguem as mulheres na política. É como se houvesse uma profecia para que fracassassem. As barreiras de acesso são imensas e se iniciam ainda na infância: às meninas não são apresentados modelos de mulheres na política em quem possam se inspirar, não nascem em famílias em que as mulheres são lideranças reconhecidas na esfera pública. A linhagem familiar passa a ser masculina, por isso a persistência de genealogias de homens na política, tal como os Calheiros no Brasil ou Samoza na Nicarágua. Quando as mulheres ultrapassam a barreira do reconhecimento e se elegem, são rapidamente desacreditadas pela sexualização de seus corpos ou pelo demérito de seus modos. O mais comum é descrevê-las como histéricas: Hillary Clinton não falava, “gritava”; Dilma Rousseff não era séria, mas “mal-humorada”.

    A América Latina é ainda tímida na paridade de gênero – em 2017, em 11 países, a participação era de 30% das mulheres na política. Já estivemos melhores: em 2014, eram três presidentas na região. Hoje, nenhuma. Somente a Bolívia pode se orgulhar da paridade de gênero, 53% de mulheres no parlamento. O Brasil não está bem na composição — é o país que menos avançou na representação paritária de gênero na política: das 54 vagas para o Senado Federal, somente 7 mulheres foram eleitas. Mas por que precisamos de mulheres na política?

    Porque há exemplos que mostram a transformação da vida das mulheres e meninas com mulheres na política. Ruanda é o país que lidera a proporção de mulheres no parlamento: as políticas de violência contra a mulher se tornaram prioridade no país. Iêmen, por outro lado, é um dos países com mais baixa representação de mulheres na política: a violação de direitos das mulheres é sistemática em nome da tradição e dos costumes. As mulheres são discriminadas em todos os aspectos da vida e, hoje, são a maioria vivendo em campos de refugiados ou favelas de Áden. É certo que os homens devem também assumir esse dever de representação, e muitos fazem bem. No entanto, a paridade de gênero na política é fundamental para o entendimento que a realidade da vida não é a mesma para mulheres e homens.

    Ainda tomará tempo para que se transforme a paisagem de gênero na política dos países latino-americanos e caribenhos. Movimentos como o #MeToo ou #EleNão são marcos de reconhecimento das vozes das mulheres no espaço público. Não sabemos, no entanto, se serão suficientes para transformar o jogo político de forma que as mulheres busquem a política como carreira ou que sejam reconhecidas como lideranças. Enquanto isso, pequenas transformações acontecem — Ocasio-Cortez acabou de se encontrar com três novas deputadas brasileiras em Washington: Fernanda Melchiona, Sâmia Bomfim e Talíria Petrone. Se ainda são poucas, as mulheres na política latino-americana parecem haver escutado o conselho de Shirley Chisholm, a primeira mulher negra eleita ao congresso nos Estados Unidos: “Se eles não lhe oferecerem um lugar à mesa, carregue uma cadeira portátil”.

    Debora Diniz é brasileira, antropóloga, professora da Universidade de Brasília.

    Comentários

    - PUBLICIDADE -

    Notícias Relacionadas

    Deputadas debatem violência contra a mulher nas eleições deste ano

    A Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados reúne-se nesta tarde para discutir a violência contra mulheres nas eleições deste ano. As deputadas lembram...

    Mulheres e homens terão salários iguais em empresas contratadas pelo GDF

    A partir de agora, as empresas que firmarem contratos com o GDF terão de remunerar de maneira igual mulheres e homens. Nesta quarta-feira (16/9),...

    Desemprego na pandemia atinge mais as mulheres e Flávia Arruda defende igualdade no mercado de trabalho

    O Brasil soma a triste marca de quase 13 milhões de desempregados e quem mais sofre com esta realidade são as mulheres. De acordo...
    - PUBLICIDADE -

    Últimas Notícias

    2h após ser roubado no Entorno, carro é recuperado na Asa Sul

    Um carro roubado neste sábado (19) no Jardim Ingá/GO foi recuperado pela Polícia Militar, por volta das 16h50. O veículo foi avistado transitando no...

    PMDF apreende espingarda em bar no P Norte

    Após denúncia anônima recebida pela Polícia Militar, uma arma de fogo foi apreendida por volta das 16h50 deste sábado (19) na QNP 1/5, em...

    Ministério Público arquiva inquérito contra Ibaneis por omissão de gastos nas eleições de 2018

    O Ministério Público Eleitoral do Distrito Federal (MPE-DF) arquivou o inquérito que apurava uso de candidatas laranja pelo MDB nas eleições distritais de 2018. O governador Ibaneis...

    Em diligência no Pantanal, senadores dizem que cenário é devastador

    Parlamentares que integram a comissão temporária externa do Senado criada para acompanhar as ações de enfrentamento aos incêndios no Pantanal realizaram neste sábado (19)...

    Vice-presidente do Flamengo defende volta da torcida aos estádios

    Neste sábado (19), em coletiva à imprensa, o vice-presidente do Flamengo, Marcos Braz, defendeu o retorno dos torcedores aos estádios. “A mágica do futebol,...